Os Quatro Motivos de Carl Sagan para transmitir a Ciência

Não é novidade para ninguém que Carl Sagan é um dos maiores divulgadores científicos da história, se não o maior. O Victor Caparica fez um resumo sensacional da vida dele aqui. E um dos exemplos dessa capacidade de divulgação científica dele é um de seus livros finais, O Mundo Assombrado Pelos Demônios.

Ler o livro inteiro é ótimo, mas nesse texto a intenção é se concentrar nos quatro motivos pelos quais a transmissão da Ciência pelos meios de comunicação é importante. Vamos a eles:

Apesar das inúmeras oportunidades de mau emprego, a ciência pode ser o caminho propício para vencer a pobreza e o atraso nas nações emergentes. Ela faz funcionar as economias nacionais e a civilização global. Muitas nações compreendem essa realidade. Por isso que tantos estudantes de pós-graduação em ciência e engenharia nas universidades norte-americanas – que ainda são as melhores do mundo -vêm de outros países. O corolário, que os Estados Unidos às vezes deixam de compreender é que abandonar a ciência é o caminho de volta à pobreza e ao atraso.

Em suma: a ciência é a melhor forma de promover crescimento econômico com inclusão social, desenvolvendo a noção de que o conhecimento é o ativo imaterial mais importante que existe.

A ciência nos alerta contra os perigos introduzidos por tecnologias que alteram o mundo, especialmente o meio ambiente de que nossas vidas dependem. A ciência providencia um sistema essencial de alerta antecipado.

A ciência, com sua metodologia que concilia ceticismo e curiosidade para descobrir respostas melhores e mais consistentes, tem capacidade preditiva superior a qualquer outro método de natureza mística. E, com essa capacidade preditiva, é possível prevenir o mundo de catástrofes ou de situações desagradáveis. Um exemplo claro dessa sensação de alerta é que desde 1945 ninguém solta bombas nucleares em lugares povoados.

A ciência nos esclarece sobre as questões mais profundas das origens, naturezas e destinos – de nossa espécie, da vida, de nosso planeta, do Universo. Pela primeira vez na história humana somos capazes de adquirir uma verdadeira compreensão desses temas. Toda cultura sobre a Terra tem tratado deles e valorizado a sua importância. Todos nós nos sentimos tolos, quando abordamos essas questões grandiosas. A longo prazo, a maior dádiva da ciência talvez seja nos ensinar, de um modo ainda não superado por nenhum outro empenho humano, alguma coisa sobre nosso contexto cósmico, sobre o ponto do espaço e do tempo em que estamos, e sobre quem nós somos.

A ciência é a melhor forma de ensinar as melhores coisas que a humanidade pode ensinar. A ciência ajuda-nos a descobrir quem somos e onde estamos, com precisão e método, melhor que qualquer outra forma de conhecimento.

Os valores da ciência e os da democracia são concordantes, em muitos casos indistinguíveis. A ciência e a democracia começaram – em suas encarnações civilizadas – no mesmo tempo e lugar, na Grécia dos séculos VI e VII a.C. A ciência confere poder a qualquer um que se der ao trabalho de aprendê-la (embora muitos tenham sido sistematicamente impedidos de adquirir esse conhecimento). Ela se nutre – na verdade necessita – do livre intercâmbio de idéias; seus valores são opostos ao sigilo. A ciência não mantém nenhum ponto de observação especial, nem posições privilegiadas. Tanto a ciência como a democracia encorajam opiniões não convencionais e debate vigoroso. Ambas requerem raciocínio adequado, argumentos coerentes, padrões rigorosos de evidência e honestidade. A ciência é um meio de desmascarar aqueles que apenas fingem conhecer. Um baluarte contra o misticismo, contra a superstição, contra a religião mal aplicada a assuntos que não lhe dizem respeito. Se somos fiéis a seus valores, ela pode nos dizer quando estamos sendo enganados. Ela fornece a correção de nossos erros no meio do caminho. Quanto mais difundidos forem a sua linguagem, regras e métodos, melhor a nossa chance de preservar o que Thomas Jefferson e seus colegas tinham em mente. Mas os produtos da ciência também podem subverter radicalmente a democracia, de um modo jamais sonhado pelos demagogos pré-industriais.

O fomento da ciência é a melhor forma de promover a democracia em uma sociedade, porque os valores da ciência e da democracia não são apenas concordantes – em muitos aspectos, são complementares.

Por isso a divulgação científica é tão importante. Ela promove inclusão, previne contra problemas futuros, ensina ao homem acerca daquilo que ele é, e, finalmente, promove sistemas de governo mais justos, porque o método científico depende essencialmente de democracia e de liberdade para sobreviver.

Anúncios
Publicado em política de C&T, Sem categoria | Marcado com , | Deixe um comentário

#Cientwistas – Vera Rubin

Por Victor Caparica

O de hoje trata de uma questão ainda em aberto na ciência, e de como uma mulher descobriu esse problema. Um problema, aliás, que ilustra muito bem como na ciência os fatos observáveis prevalecem sobre as teorias estabelecidas.

Vera Rubin nasceu em 23 de Julho de 1928, na Filadélfia, EUA, filha de um casal de estrangeiros. Seus pais desde muito cedo se preocuparam em dar estudos às duas filhas, acreditando que seria o que as emanciparia na vida.

Com 10 anos ela se mudou com a família para Washington DC, onde seu pai trabalhava como eletricista e sua mãe como projetista na Bell. Lá ela conheceu um planetário, onde nasceu sua paixão pela astronomia, que se tornou sua profissão.

Ela se graduou muito jovem, e queria ir para Princeton fazer pós em Astronomia. Só que Princeton não aceitou mulheres no departamento de Astronomia até 1975. Sim, Setenta e Cinco, MUITO recente. Então azar da Princeton, porque ela foi pra Cornell University, que não tinha mais essa estupidez institucional. Ela se formou, tendo trabalhado com gênios como Richard Feynmann, que um dia certamente aparecerá nos .

Em 1962, ela se torna a primeira professora mulher na Astronomia da Georgetown University. E, em 1965, a primeira mulher a ter autorização para operar os telescópios fodões do Observatório de Palomar.

Foi quando ela começou a observar galáxias com mais atenção, e reparou duas coisinhas que ninguém tinha reparado. Primeiro, ela pegou o movimento da Via Láctea e comparou com o da radiação de fundo observada no Universo. Depois, pegou esse mesmo movimento da Via Láctea e comparou com o de diversas galáxias próximas.

E descobriu que, ao contrário do que pensávamos, as galáxias não estão voando cada uma numa direção aleatória. Elas formam blocos. Elas orbitam umas às outras, e se movem em grupos que a Vera chamou de Galaxy Clusters, o nome que usamos até hoje.

Mas essa foi a primeira observação. A segunda teve um impacto bem maior na Astronomia. Ela estava observando galáxias, mais exatamente a de Andrômeda, nossa vizinha, e notou uma coisa estranha. Os corpos presentes na galáxia, especialmente nas bordas dela, estavam se movendo muito rápido, orbitando muito rápido. Rápido demais.

Na velocidade que ela observava eles orbitando a galáxia, eles deveriam estar sendo arremessados pra fora dela pela força centrífuga. Mas não estavam, e não estão, o que sugere que alguma força está segurando essas estrelas lá, prendendo-as.

E aí surge o que a Vera chamou de “Problema da Rotação das Galáxias”, algo que ela observou em todas as outras, não só em Andrômeda. Na velocidade que as bordas das galáxias estão girando, seu conteúdo deveria estar sendo ejetado pela força centrífuga, mas não está.

Nós só conhecemos uma força capaz de manter tanta matéria agrupada mesmo contra tanta força tentando separá-la, e é a gravidade. E até onde nosso limitado saber do Universo nos diz, só matéria produz gravidade. Então a gente conta quanta matéria parece ter nas galáxias, coisa que nossos telescópios já permitem, e aí vem o susto.

Porque a Física Newtoniana é realmente muito boa nisso de calcular a massa e o efeito gravitacional de corpos, a conta sempre bate. Daí a gente olha pras galáxias, contabiliza quanta gravidade deveria estar sendo exercida pela matéria que observamos… e a conta não bate. Mas assim, não bate por MUITO, era pra conta dar digamos 30 e dá mais de 300. Tinha algo muito errado.

Bem, temos aqui uma série de fatos.

1. As Galáxias giram rápido demais pra matéria que observamos mantê-las agrupadas com sua gravidade, elas deviam estar se despedaçando.

2. Elas não estão se despedaçando, o que nos leva a crer que existe muita gravidade impedindo isso.

3. Quando contamos a matéria nessas galáxias, falta matéria pra perfazer toda aquela gravidade. Na verdade, falta 90%.

Conclusão lógica? Temos algumas, mas ciência não é filosofia, não basta fazer sentido.

A mais prestigiada pela ciência hoje é a famosa teoria da Matéria Escura, ou Dark Matter. É a solução mais simples. Só matéria gera gravidade, e se tem gravidade então tem matéria. E se não podemos vê-la, então é um tipo de matéria que não emite radiação, algo que francamente desconhecemos hoje. Então, matéria porque gera gravidade, e escura porque não podemos vê-la, só observar e quantificar sua influência.

A Matéria Escura é hoje o mais importante mistério ainda não solucionado na Astronomia, há MUITA pesquisa sobre o assunto. E a organização das galáxias em clusters nos permitiu compreender sua evolução e, conseqüentemente, a história e evolução do Universo.

Tudo isso descoberto por uma cientista que foi acolhida pela Cornell University, porque a Princeton não aceitava mulheres na Astronomia.

Vera Rubin foi contemplada com uma quantidade de homenagens, prêmios e medalhas científicas que não caberiam aqui.

Ela própria não acredita muito na hipótese da Matéria Escura. Ela acha mais provável isso ser algum aspecto da mecânica newtoniana ainda a ser explicado pela Física, não um novo tipo de matéria.

Vera Rubin tem três filhos e uma filha, hoje todos cientistas. Hoje, aos 93 anos, ela dedica seu tempo, fama e recursos a fomentar a entrada e permanência de mulheres no meio científico. É uma das maiores ativistas pela igualdade de gêneros nas cadeiras da Associação Nacional de Ciências, nos EUA.

E essa, pessoas, é a professora Vera Rubin, a de hoje. Obrigado pela paciência, semana que vem tem mais.

Ah, faltou uma última consideração na história da Vera Rubin:

Chupa, Princeton!

Pronto, agora tá completo 🙂

Para acessar outros textos da série #Cientwistas, clique aqui.

Publicado em Cientwistas | Marcado com , , | Deixe um comentário

Por que políticos precisam da Ciência?

Por Michael Shermer

O Senador Ted Cruz, que anunciou recentemente sua candidatura à indicação do Partido Republicano à presidência dos EUA, pensa, como muitos conservadores, que o aquecimento global não está ocorrendo. Ele disse ao talk show de Seth Meyer em 16 de março que “Os dados de satélite demonstram que nos últimos 17 anos tivemos zero aquecimento, nenhum que seja”

Não há surpresa no uso desse dado por Cruz: 1998, há 17 anos atrás, foi um ano de “El Niño”, com o aumento global das temperaturas sendo inflado por esse fenômeno, com a série histórica das temperaturas retornando depois à taxa gradual de amento registrada normalmente. Quando você olha para todos os dados publicados pela NOAA (e não apenas para dados escolhidos a dedo por se encaixarem com uma ideologia política), o aumento a longo prazo da temperatura global é incontestável.

Não estou dizendo que os liberais* não tem seus próprios problemas com a Ciência. Eles não vêem problemas em protestar contra alimentos transgênicos ou contra a energia nuclear, e ignoram os óbvios benefícios proporcionados pela indústria dos combustíveis fósseis em ter impulsionado os pobres a uma era de prosperidade (assar carne em lareiras improvisadas em cabanas de barro não é um meio eficiente de aquecer casas ou produzir riqueza). Não cabe aqui falar dos grupos anti-vacina, um grupo escandaloso e determinado que é uma pequena minoria em ambos os lados do espectro político.

Os pais fundadores devem estar envergonhados.

Três séculos depois que a Idade da Razão e o Iluminismo deram a inspiração para a Revolução Americana, estamos esquecendo que são as conclusões científicas que devem resolver esses problemas, e não a política partidária. Em relação aos exemplos dados, as conclusões são bastante claras e consistem em que: o aquecimento global existe e foi causado pelo homem, os alimentos transgênicos são seguros e precisamos de todas as fontes de energia possíveis para atender à demanda de nossa população, sempre crescente. Por que, então, estamos tão divididos politicamente em relação a esses pontos? Parece que, em nossa ânsia de encontrar apoio para aquilo que queremos que seja verdade (é um efeito chamado “raciocínio motivado”, impulsionado pelo viés de confirmação, a necessidade de encontrar evidência para aquilo que acreditamos ou desacreditar ou ignorar discursos contrários), nós esquecemos de discernir o que realmente é verdade. Esquecemos como usar a ciência e a razão para resolver questões e utilizamos discursos morais para esclarecer questões científicas.

Aqui está por que nós, e particularmente Ted Cruz, precisamos nos preocupar com isso: o influxo dos princípios científicos na sociedade liderou não apenas o triunfo da ciência, mas também o progresso moral da tradição liberal do Ocidente – sim, até mesmo para democracia americana levantada como “excepcional” por Ted Cruz. Desde a revolução científica dos séculos XVI e XVII, intelectuais tentaram emular grandes cientistas como Galileu e Newton em aplicar os rigorosos métodos das Ciências Naturais para resolver problemas sociais e políticos. O Iluminismo trouxe filósofos como John Locke, Thomas Jefferson, Benjamin Franklin, Alexander Hamilton, James Madison e Thomas Paine – os pais fundadores da América – que colocaram como valor supremo a razão e a investigação científica, liderando uma mudança que levou a valorização dos direitos naturais do homem, como igualdade e liberdade de pensamento e expressão.

De fato, a própria democracia da América está enraizada na análise racional e na investigação científica. Baseado em seu treinamento médico e no pensamento dos maiores cientistas de sua geração, Locke pensou que todo o povo deveria ser tratado igualmente perante a lei. Ele procurou verificar sua teoria empiricamente. E sua teoria encontrou embasamento prático, os países que a aplicaram se desenvolveram.

Considere como a ciência afetou o pensamento dos líderes que criaram o nosso mundo moderno. O Leviatã de Thomas Hobbes, reconhecidamente o maior tratado político já escrito, começa com movimentos atomizados para construir, com base na observação, os primeiros princípios de um sistema social racional e baseado no empirismo (ele chamava a si mesmo de “Galileu da sociedade civil”). Montesquieu, em seu livro O Espírito das Leis, invocou Newton quando comparou um governo que funciona bem com “o sistema do Universo”, incluindo “o poder da gravidade” que “atrai” todos os corpos ao “centro” (monarquia), e empregou o método dedutivo de René Descartes: “Previ os primeiros princípios e tenho visto que os casos particulares seguem naturalmente esses princípios”, disse ele. Por “espírito”, Montesquieu entende “causas”, de onde podem derivar as “Leis” que governam a sociedade. “Leis, em seu significado mais geral, são as relações derivadas da natureza das coisas”, ele disse.

François Quesnay – médico do Rei da França – e seus seguidores (os fisiocratas franceses) desenvolveram um estudo sistemático da economia para o qual foram colhidas evidências empíricas e foram derivados princípios racionais para explicar como economias crescem ou diminuem em função das políticas de governo. Isso impulsionou o filósofo moral iluminista escocês Adam Smith a escrever o texto fundador da economia, hoje conhecido como A Riqueza das Nações. O título completo, de fato, era Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações. Era uma investigação científica para saber a verdadeira natureza e as causas da riqueza, um ponto fora da linha da revolução científica.

Podemos ver que pelos últimos três séculos temos utilizado a ciência para determinar nossos valores morais e isso tem se mostrado o melhor caminho para estruturar a política, a economia, o sistema legal e a sociedade civil. Por esse caminho médicos tem aprimorado a ciência médica e epidemiologistas tem trabalhado para construir uma saúde pública melhor, usando princípios científicos para atenuar pragas, doenças e outras ameaças à humanidade. Nós vamos desistir disso tudo agora?

Desde que os cientistas da época do Iluminismo empreenderam um grande programa de pesquisa para compreender como as sociedades funcionam e como melhorá-las, o arco da moral tem se dobrado em direção à verdade, à justiça e à liberdade. A razão pela qual nossos ancestrais europeus na Idade Média amarravam mulheres inocentes em uma pira e ateavam fogo era a de que eles as consideravam bruxas que causavam a perda de colheitas, anomalias climáticas, doenças e outros infortúnios. Hoje, nos abstemos de queimar mulheres na fogueira não porque o governo proíbe isso, mas porque temos uma compreensão científica desses infortúnios e doenças. O que era uma questão moral e religiosa agora é uma não questão, lançada fora pela nossa consciência – e a nossa consciência, munida de naturalismo e de ciência, agora tem uma visão de mundo baseada na razão.

A ciência e a razão derrubaram uma série de mitos: o de que os deuses precisam de sacrifícios animais e humanos, o de que as pessoas são possuídas por demônios, o de que judeus causam pragas e doenças, o de que existem raças superiores às outras, o de que as mulheres são fracas demais para comandar empresas ou países, o de que os animais são autômatos e não sentem dor, o de que os reis comandam países por direito divino, e muitas outras crendices que as pessoas com um conhecimento científico mínimo abominam, por não terem respaldo na realidade.

Nós não estamos tão longe dessas crendices quanto nós pensávamos estar.

Líderes republicanos e democratas podem não ver a conexão entre suas posições atuais sobre aquecimento global e alimentos transgênicos e coisas como a caça às bruxas ou a escravidão. Mas os nossos conceitos modernos de governança surgiram de nossa capacidade de aplicar a ciência e a razão para lidar com todos os nossos problemas, incluindo os problemas humanos e sociais. No longo prazo, precisamos deixar de lado as posições dos dois partidos que causam controvérsias em temas como mudança climática, política energética e vacinação, voltando a fazer o que sempre fizemos e aplicando a ciência e a razão para resolver os nossos problemas sociais, para que o nosso arco moral se incline cada vez mais em direção ao aperfeiçoamento da humanidade. É o que os pais fundadores gostariam.

Publicado originalmente no Politico Magazine. Traduzido pela Editoria Além do Laboratório

*NOTA DO TRADUTOR: Nos EUA, ao contrário do Brasil, “liberal” designa uma parcela da população mais “leftist”, identificada, em sua maioria, com o Partido Democrata, com posições mais progressistas que os “conservadores”, identificados em sua maioria com o Partido Republicano.

Publicado em História, política de C&T | Marcado com , | 1 Comentário

#Cientwistas – Nikola Tesla

Por Victor Caparica

Hoje falarei sobre um dos inventores que mais se aproximou daquele estereótipo de supergênio da ficção científica. E não seria exagero algum dizer que, juntamente com Michael Faraday, esse é um dos dois cientistas cujo trabalho mais afeta nossas vidas. Nascido em 1856 numa região do então Império Austríaco, atualmente Croácia, nosso herói foi o quarto de cinco filhos, e se chamava Nikola.

Seu pai, Milutin Tesla, era padre da Igreja Ortodoxa, e a princípio queria muito que o pequeno Nikola seguisse seus passos. Só que de sua mãe o menino herdou a criatividade e uma memória quase infalível que o fizeram se destacar muito nos estudos. Muito MESMO.

No Ensino Médio ele resolvia problemas de Cálculo Integral de cabeça, e deixem-me esclarecer isso pro pessoal de Humanas: É difícil. Mas seu pai seguia com planos clericais pro rapaz, até que, vejam só, Deus em pessoa decidiu intervir!

Porque o jovem Nikola pegou Cólera, e a doença foi tão feia e ele passou tantas vezes tão perto de morrer que seu pai fez uma promessa. Jurou que se o menino ficasse bom ele faria o que fosse preciso para mandá-lo pra melhor escola de engenharia que houvesse. Não me perguntem a lógica, eu só relato as histórias, mas ele achou que seu filho engenheiro alegraria mais a Deus do que como sacerdote. Sorte nossa, pois o rapaz efetivamente se curou da doença e foi estudar engenharia, porque promessa é dívida.

Ele entrou na Politécnica de Graz, na Áustria, e se tornou o aluno mais extraordinário da instituição. Ele trabalhava 20 horas por dia, fazia o dobro dos exames exigidos, nunca perdia uma aula e tinha as melhores notas da escola.

Seus professores primeiro escreveram pro seu pai dizendo que ele era “uma estrela de primeiro escalão”. Depois escreveram de novo dizendo que se ele não fosse removido da escola acabaria se matando de exaustão com tantas horas de trabalho.

Não foi preciso, porque ele mesmo largou a escola para… jogar baralho?! Sim, jogar baralho. Porque nosso cientista era viciado em jogatina e no terceiro ano perdeu e reganhou todo seu dinheiro nas cartas.

Com 23 anos ele teve uma crise nervosa, cansou daquilo tudo, mandou todos pro inferno e foi pra Budapeste trabalhar, e tchau faculdade. Lá ele trabalhou como eletricista-chefe numa empresa de telégrafo, e de lá foi contratado pela Edison Company de Paris no ano de 1882. O mesmo ano em que ele descobre o Campo Magnético Rotativo, uma propriedade do eletromagnetismo que ele aplicou em seu Motor de Indução.

Esse Motor de Indução não era o primeiro motor elétrico, Michael Faraday fez essa descoberta uns 60 anos antes. Mas o de indução operava diretamente em corrente alternada, sem conversão pra contínua, uma vantagem enorme que barateava as coisas. O motor elétrico do ventilador do seu quarto, que liga direto na tomada sem precisar de fonte, é de indução, opera em corrente alternada.

Bem, 2 anos depois disso a Edison Company o enviou para o escritório principal em Nova York, e ele foi trabalhar como engenheiro eletricista. E foi aí que Thomas Edison e Nikola Tesla, dois dos maiores inventores de todos os tempos, trabalharam juntos, por um curto período. Há muita crítica a ser feita ao Edison, mas nenhuma muda o fato de ele ter inventado muita coisa importante e financiado muita pesquisa.

A relação dos dois nunca foi boa. Começou com o Edison dando um calote de 50 mil dólares no Tesla, na época uma fábula de dinheiro. O Edison falou que quem resolvesse um problema dos geradores elétricos ganharia 50 mil doletas, e o Tesla, bem, ele foi lá e resolveu. E quando chegou pra cobrar ouviu um “Tesla, você não entende o humor americano, toma aqui um aumentinho no salário!” Ele mandou o pilantra à merda e saiu da Edison Company e, depois de um tempo trabalhando de pedreiro, achou investidores pros seus projetos.

Vamos contextualizar rapidamente aqui a questão das correntes elétricas conforme ocorria na época. Já existiam e ainda existem 2 jeitos de transmitir eletricidade pelos fios: Corrente Alternada e Corrente Contínua. Ou Alternate Current e Direct Current, AC/DC. E você achando que o nome da banda tinha a ver com Cristo.

A Corrente Contínua era o sistema usado pela Edison Company, e alimentava os motores e lâmpadas da época operando com baixa voltagem.

A Corrente Alternada utilizava-se de uma sacada técnica que não cabe explicar aqui mas que gerava uma vantagem fácil de entender: Nela a voltagem podia ser muito alta sem dissipar tanto calor pelo fio, e isso facilitava a transmissão e barateava a eletricidade.

Resultado? Galera começou a olhar a Corrente Contínua da Edison Company e achar que tava muito caro e não valia a pena, enquanto a Tesla Electric já montava redes elétricas, motores e lâmpadas, tudo em sistemas de corrente alternada, tudo bem mais barato. E por que não se usava AC antes? Porque os aparelhos existentes (lâmpadas e motores) só trabalhavam em DC. Até o Tesla desenhar modelos AC.

E assim, apesar dos esforços contrários de Thomas Edison, a Corrente Alternada se tornou o padrão de distribuição elétrica, usado até hoje.

A essa altura nosso amigo Tesla já tinha a famosa “moral com a galera”, e conseguia investimentos sem muito esforço. O que não necessariamente foi algo bom, já que o cara tinha idéias mirabolantes que com os investimentos viraram protótipos. Mas quando digo “mirabolantes”, quero dizer coisa de cientista maluco da sci-fi, querem exemplos?

Primeiro ele pensou numa máquina que criaria oscilações cumulativas capazes de gerar terremotos e, no limite, fragmentar o globo terrestre. Daí ele pensou num gerador de raios elétricos imensos, que batizou de “Raio da Morte”. Sério. Sério mesmo, que nem nas sci-fi.

É difícil falar de todos os inventos desse sujeito, porque em geral ele não inventava objetos de uso cotidiano, mas tecnologias de base. Seus inventos eram os tijolinhos imprescindíveis que permitiram a construção de grandes coisas que fazem parte do nosso dia-a-dia.

Por exemplo, a Bobina de Tesla, usada pra criar correntes de alta voltagem. Uma versão dela é usada nas ignições de carros hoje. Outro exemplo são as antenas, sintonizadores e afins ligados à transmissão sem fio, que ele inventou bem antes do Marconi usar no seu rádio.

Ele não apenas inventou a lâmpada fluorescente e a lâmpada neon, ele já teve de cara a idéia de moldá-las na forma de letreiros. E quando nosso amigo descobriu que com sua bobina podia gerar freqüências tão altas que não atravessariam a pele humana, ele teve uma idéia. Uma aplicação dela é mostrada em uma das mais emblemáticas fotos de Nikola Tesla, a lâmpada sem fios:

Tesla-bulb

Mas a mente do cara tinha uma aplicação melhor, que tomou a forma da Wardenclyffe Tower, seu maior e mais desastroso projeto. A idéia era uma torre que usaria sua bobina para transmitir sem fio tanto eletricidade quanto conteúdo a distâncias transoceânicas. Esse projeto consumiu todo o tempo, todo o dinheiro e toda a reputação de Tesla, e no final não foi concluído por falta de verbas.

Sua última patente registrada foi o modelo de um avião que custaria menos de 1000 dólares para fabricar e que decolaria na vertical.

Seus últimos anos foram vividos no hotel New Yorker, pago com uma pensãozinha dada pela Westinghouse como uma dívida moral. Em Janeiro de 1943, Tesla morreu sozinho em seu quarto de hotel, vítima de trombose coronária, aos 86 anos.

Ao lado de Albert Einstein, Nikola Tesla é um dos cientistas mais homenageados na cultura popular de nosso tempo.

Hoje a densidade de fluxos magnéticos é medida em Teslas. Da Croácia até as Cataratas do Niágara, há estátuas de Tesla por toda parte, relembrando seu papel na construção da modernidade.

Em 2006, ninguém menos que David Bowie interpretou Nikola Tesla no filme “The Prestige”. Não é um filme bom, já aviso, mas tem o Bowie. (na verdade é um filme bem ruim)

Esse foi o mais longo até aqui, e mesmo assim a maior parte das invenções mais relevantes do sujeito ficaram de fora.

Vou finalizar contando que Nikola Tesla tinha um apreço enorme por pombos, e os alimentava regularmente em seus passeios em Nova York. Um desses bichinhos ele encontrou ferido, quase morto, e resgatou e tratou até curar, e virou seu pombo de estimação. Esse bicho virou sua companhia nos últimos anos de vida, quando Tesla lidava com a pobreza e a falta de reconhecimento por seu trabalho.

Enfim, pessoas, esse foi o de hoje. Semana que vem tem mais. Grato pela habitual paciência.

Para acessar outros textos da série #Cientwistas, clique aqui.

Publicado em Cientwistas | Marcado com , , | 1 Comentário

#Cientwistas – Erich Von Däniken

Por Victor Caparica

Hoje vamos conhecer a história do cientista que desvendou um dos maiores mistérios da humanidade. Seu trabalho elucidou não apenas como as pirâmides do Egito foram construídas, mas também como desenvolvemos a agricultura e as religiões.

Erich Anton Paul Von Däniken nasceu na Suíça em 14 de Abril de 1935, ano de numerosos avistamentos de OVNI’s na região.

Seu interesse pelas lacunas inexplicáveis da paleontologia o levou muito cedo a estudar culturas antigas do Egito e da Suméria. Ele viajou jovem para o Egito, onde começou a pesquisa que deu origem a seu trabalho científico mais relevante. Lá, ele encontrou evidências irrefutáveis da interferência de culturas alienígenas na formação da sociedade humana primitiva.

E após anos de estudos sérios, compilou em sua obra mais famosa as respostas para mistérios como o surgimento da escrita e da matemática. Em “Eram os Deuses Astronautas?”, Von Däniken expõe fatos jamais imaginados pela ciência de seu tempo, dentre os quais podemos citar:

¯\_(ツ)_/¯

Esse foi o nosso post especial de 1º de abril.

Para acessar outros textos da série #Cientwistas, clique aqui.

Publicado em Cientwistas | Marcado com , , | Deixe um comentário

O Queijo Mudou o Curso da Civilização Ocidental

Por Cynthia Graber e Nicola Twilley

Caixote de queijo para entrega (Fonte: Reuters / Denis Balibouse)

Caixote de queijo para entrega (Fonte: Reuters / Denis Balibouse)

Essa é a história que você já deve ter ouvido falar sobre a descoberta do queijo: em um dia quente há 9 mil anos, um nômade estava em uma de suas viagens – e carregava um pouco de leite dentro de um estômago animal – uma espécie de invólucro térmico da época – e tentou tomar um pouco do leite no final do dia. Quando abriu, descobriu que o leite dentro do revestimento do estômago havia coalhado, criando o primeiro queijo.

Mas há um problema com essa história, de acordo com Paul Kindstedt, historiador e estudioso da história dos queijos da Universidade de Vermont: os nômades vivendo no Crescente Fértil do Oriente Médio por volta de 7000 a.C. eram todos intolerantes à lactose.

Um nômade na estrada não podia querer tomar leite; isso causaria nele um severo desarranjo gastro-intestinal.

Kindstedt, autor do livro Cheese and Culture, explicou no podcast Gastropod que, cerca de 1000 anos antes dos primeiros vestígios de fabricação de queijos, os humanos começaram a produção agrícola. A produção do trigo e de outras culturas começou a atrair animais como os carneiros e cabras selvagens, que davam leite para seus filhotes.

Os bebês humanos também estavam perfeitamente adaptados para o consumo de leite. A ideia de usar o leite dos animais surgiu rapidamente, mas nos primeiros mil anos apenas bebês e crianças consumiam leite.

Homens adultos eram uniformemente intolerantes à lactose, afirma Kindstedt. Ele nos fala sobre o assunto: “nós sabemos que a modelagem genética que permitiu aos adultos ter tolerância à lactose só foi desenvolvida por volta de 5500 a.C.” – cerca de mil anos após o desenvolvimento do queijo.

O Surgimento do Queijo

O surgimento do queijo é datado em cerca de 8500 anos atrás, junto com dois acontecimentos simultâneos na história humana.

O primeiro deles foi que a agricultura intensiva causou o esgotamento dos solos, no que foi o primeiro desastre ambiental causado pelo homem. Como resultado, os homens do Neolítico intensificaram o pastoreio de cabras e carneiros, porque esses animais sobreviviam bem nesses solos esgotados.

O segundo acontecimento foi a invenção da cerâmica, que se tornou a embalagem original para a coleta de leite.

Kindstedt explicou que, na região quente do Crescente Fértil, qualquer leite que não fosse utilizado imediatamente, ficando nos recipientes de cerâmica recém inventados, “teria coagulado muito rapidamente, em questão de horas” (devido ao calor e às bactérias produtoras de ácido lático no leite). E, em algum momento, alguns adultos aventureiros resolveram provar esse material coagulado e perceberam que poderiam tolerar muito mais dele do que do leite.

Isso ocorre porque cerca de 80% da lactose é drenada com o soro do leite, formando um digerível e delicioso queijo fresco.

O Queijo Estimulou uma Mutação Genética no Homem

Com a descoberta do queijo, pela primeira vez os seres humanos puderam adicionar laticínios em suas dietas. O queijo se tornou uma forma completamente nova de obtenção de calorias e nutrientes para adultos, e, com isso, a produção de leite cresceu de forma significativa.

Kindstedt diz que o aumento da produção ocasionou que “as crianças eram expostas mais frequentemente ao leite. Com o tempo, surgiram mutações genéticas aleatórias e algumas crianças passaram a tolerar lactose também na vida adulta”

Em alguns poucos milhares de anos, um período muito curto quando falamos de evolução humana, essa mutação genética se espalhou por toda a região do Crescente Fértil.

Alguns desses pastores migraram para a Europa, e carregaram essa mutação genética junto com eles. De acordo com Kindstedt, “esse é um belíssimo exemplo de uma seleção genética ocorrida em um período inacreditavelmente curto da história humana. É uma maravilha do mundo, e isso mudou a civilização ocidental para sempre”.

Publicado originalmente no Quartz. Traduzido pela Editoria Além do Laboratório. Sugestão do Charles Nisz

Publicado em Antropologia, Biologia, História | Marcado com , , | 2 Comentários

Gel cirúrgico pode ser utilizado como selante em cirurgias cardíacas

(com Bloomberg)

O coração é uma parte muito problemática do corpo quando pensamos em um procedimento cirúrgico. O fato de que o coração é um músculo que precisa se contrair e relaxar continuamente, bombeando sangue pelo corpo, faz com que tudo o que ocorre por lá seja mais sensível. Durante uma cirurgia, isso adquire contornos dramáticos, uma vez que os métodos usuais de sutura, utilizados em outras partes do corpo, não funcionam em um órgão que precisa continuar trabalhando incessantemente.

Pensando nesse problema, pesquisadores do MIT Karp Lab, em parceria com uma equipe de pesquisadores da Gecko Biomedical, desenvolveu um poderoso gel selante, que dispensa o uso de suturas ou grampos, podendo ser aplicado em um coração funcionando normalmente durante um procedimento cirúrgico.

Como funcionam os procedimentos cirúrgicos cardíacos atualmente? Quando o coração sofreu uma lesão grave, que precisa de reparação, o sangue circula pelo corpo  impulsionado temporariamente em máquinas específicas para esse fim, enquanto o coração é suturado e se recupera, para poder voltar ao funcionamento. No entanto, esse procedimento não pode demorar muito e é repleto de riscos.

Com o novo gel, esse problema acaba: “o gel se liga rapidamente aos tecidos do corpo, promovendo uma vedação rápida. Com o tempo, a cola se degrada naturalmente, e o próprio tecido do corpo cresce em seu lugar, dando uma recuperação natural ao órgão”, explica Maria Pereira, coordenadora do projeto.

O gel também tem a vantagem de tornar as cirurgias cardíacas bem menos invasivas: “Uma vez que a cola pode ser aplicada com seringa, muitos procedimentos cardíacos podem se tornar minimamente invasivos, tornando o risco de infecção quase nulo e reduzindo radicalmente o tempo de recuperação”, continua Pereira.

Os testes em humanos devem ser feitos à partir do ano que vem, com autorização da FDA. O vídeo abaixo (em inglês) explica o funcionamento do gel:

Publicado em Saúde | Marcado com , | Deixe um comentário