O Brasil vai romper a parceria com a Ucrânia no programa espacial?

Em março, o site Poder Aéreo noticiou que o Brasil deve romper seu acordo com a Ucrânia para o uso do foguete Cyclone 4 (ou Tsyklon 4, em ucraniano), fabricado pelos ucranianos, para lançamento de satélites na base de Alcântara. Mais recentemente, a Folha também falou a respeito do assunto, confirmando o cancelamento.

Para quem não se recorda: desde 1999 o Brasil tem um acordo com a Ucrânia para a produção e o lançamento de foguetes. A Ucrânia, que detém a expertise na produção de foguetes desde a época em que ainda era parte do estado soviético, entrou com a produção dos foguetes Cyclone 4, enquanto o Brasil, por sua vez, entrou com a criação da infraestrutura de lançamento na base da Alcântara.

Para a viabilização do projeto, foi criada uma empresa binacional, a Alcantara Cyclone Space, e os foguetes foram construídos, não sem  sucessivos atrasos de ambas as partes: em 2003, o acidente que matou 21 pessoas na Base de Alcântara atrasou todo o programa espacial brasileiro; em 2008, a crise econômica fez a economia ucraniana recuar 15%, atrasando a parte ucraniana do projeto.

A notícia do rompimento do acordo, embora não tenha sido confirmada pelo governo brasileiro, é tratada com seriedade pela própria Alcântara Cyclone Space e pela Agência Espacial Ucraniana, como prova a última Assembléia Geral da empresa:

O Conselho de Administração enviou uma Nota à Assembleia Geral solicitando que esta última discuta a necessidade de uma decisão dos Governos de ambos os Países sobre a continuação do Projeto e a questão do ressarcimento pela Agência Espacial Brasileira (AEB) do montante devido à ACS. Na reunião da Assembleia Geral, Dr. Oleh Uruskyi, Presidente da Agência Espacial Estatal da Ucrânia e representante oficial da Parte Ucraniana, confirmou a intenção da Ucrânia de continuar o Projeto e solicitou à Parte Brasileira que informe à Parte Ucraniana sua posição oficial quanto à continuidade do Projeto Cyclone-4.

Um eventual encerramento do acordo no momento atual teria contornos catastróficos, uma vez que o Brasil já investiu quase R$ 1 bilhão no projeto, e, além do desperdício de dinheiro, perderia todo o desenvolvimento tecnológico obtido. A Ucrânia, por sua vez, se comprometeu com o término da construção dos foguetes Cyclone-4 na fábrica da Yuzhnoye, em Dnipropetrovsk, apesar dos conflitos que ocorrem no país atingirem locais próximos aos de algumas empresas subcontratadas, como a Azovmash, sediada em Mariupol.

Outro fator preponderante que pode indicar um rompimento da parceria entre Brasil e Ucrânia é a aproximação brasileira em relação à Rússia. No último dia 08 de maio, o Ministro da Defesa Jacques Wagner esteve nas comemorações dos 70 anos do Dia da Vitória em Moscou, que celebra a derrota das forças nazistas pelos soviéticos. A própria chefe de estado Dilma Rousseff havia sido convidada. Por que isso é importante? Porque a maioria dos países ocidentais boicotou essa comemoração, em represália à ação do regime de Vladimir Putin na Criméia e no Leste da Ucrânia, ferindo a soberania do país. Ao comparecer ao desfile, a delegação brasileira dá um recado claro de que não está se importando muito com as arbitrariedades russas em território ucraniano.

Além das questões políticas, a rompimento da parceria no momento atual seria terrível por um motivo simples: as estruturas já estão prontas. Os foguetes feitos pela Yuzhnoye já foram montados e até mesmo a parte burocrática já foi feita: a documentação já está liberada para o início dos testes na base de Alcântara.

Os dois primeiros estágios do Cyclone-4 (Fonte: Alcantara Cyclone Space)

Os dois primeiros estágios do Cyclone-4 (Fonte: Alcantara Cyclone Space)

As justificativas para o rompimento são várias: o momento de ajuste fiscal, que não permite ao Brasil gastar tanto dinheiro no desenvolvimento dos foguetes, a pressão russa, que fez uma oferta de lançadores ao Brasil no lugar dos lançadores ucranianos e também a reaproximação com os EUA, que historicamente boicotaram o programa espacial brasileiro, por sua natureza militar. O governo pode ceder aos americanos o direito sobre a base de Alcântara, coisa que já foi ventilada (e fortemente rechaçada pela opinião pública) no início dos anos 2000.

Em todos esses casos, sairíamos em desvantagem. Porque nem EUA e nem Rússia querem transferir tecnologia para o Brasil. Os americanos utilizam o Regime de Controle da Tecnologia de Mísseis (RCTM) como justificativa para não transferir nenhuma tecnologia do tipo ao Brasil., argumentando que poderíamos utilizar a tecnologia dos lançadores de foguetes para produzir mísseis balísticos.

Quando o acordo com a Ucrânia foi firmado, o objetivo era um só: o de criarmos autonomia no desenvolvimento de foguetes e no lançamento de satélites. Agora, com a provável quebra no contrato, apesar da reiterada disposição do governo ucraniano de continuar o projeto, perdemos o pouco avanço que tínhamos feito e jogamos de vez no lixo qualquer intenção de desenvolver um programa espacial sério, autônomo, que impulsione o desenvolvimento tecnológico do país, como já aconteceu nos EUA e na Rússia e está acontecendo atualmente na China e na Índia.

E jogamos no lixo o valor investido também, de R$ 1 bilhão nos anos de projeto. E damos a chance para qualquer outro país comprar a tecnologia JÁ DESENVOLVIDA pela Ucrânia no lançamento de foguetes, além de lançadores já prontos. É um erro inacreditável, em um monte de aspectos.

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