#Cientwistas – Lise Meitner

Por Victor Caparica

A de hoje viveu um período crucial na ciência, e por isso sua história está cheia de nomes famosos. A parte lamentável é que, em minha opinião, o mais famoso desses nomes deveria ser o dela, e não é. Vamos tentar mudar isso.

Elise Meitner nasceu em 7 de Novembro de 1878, em Vienna, Áustria, terceira filha de um advogado judeu. Já adulta, ela se converteu ao cristianismo protestante e mudou seu nome para Lise, que achava mais bonito.

Seu pai garantiu que os filhos tivessem acesso à educação, as filhas inclusas nisso, e Lise foi estudar Física. Só que na época mulheres não podiam ser matriculadas nesses cursos públicos. E esse foi o primeiro grande obstáculo que ela venceu.

Ela estudou com professores particulares pagos por seu pai, e quando terminou os estudos foi até a Universidade de Vienna. Fez uma série de provas, demonstrou que manjava das coisas e recebeu seu diploma em Física, sendo aceita para o doutorado. Em 1905 ela se tornou a segunda mulher a receber o título de doutora em Física pela Universidade de Vienna.

Com seu doutorado, ela foi a Berlim para ver as palestras de um cientista chamado Max Planck, de quem virou assistente. Foi lá que ela conheceu outro cientista famoso, o Prof. Otto Hahn, Químico dos mais respeitados na Europa.

Hahn e Meitner trabalharam juntos descobrindo novos isótopos, e em 1912 moveram suas pesquisas para o recém-fundado Kaiser Wilhelm Institute. Lá essa mulher trabalhou sem salário e sem moral, nada muito além de uma assistente que Hahn respeitava pela inteligência.

Até que, em 1917, ela com a ajuda do Hahn descobriu um isótopo estável novo, o Protactínio, e ganhou MUITA moral. Tanta que a Universidade de Praga ofereceu um trabalho bem remunerado, e o Hahn teve que rever alguns de seus preconceitos. Lise passou a receber um bom salário de pesquisa, e se tornou chefe de seu próprio departamento de Física no Kaiser Wilhelm Institute.

Foi quando ela levou a primeira grande puxada de tapete na pesquisa, em 1922. Ela descobriu a explicação para um fenômeno no qual um átomo neutro, estável, liberava espontaneamente um elétron e se tornava instável. Ela fez a observação, fez os cálculos, anotou tudo, mas lembrem que ela era mulher, então pouca gente deu atenção. Um ano depois o cientista francês Pierre Auger descobriu o mesmo efeito, que hoje deveria se chamar Efeito Meitner, mas chama Efeito Auger.

Mas lembram que falei que ela viveu um período crucial para a ciência? Pois então, vamos a ele.

Ocorre que nos anos 30 foi descoberto o Nêutron, e com ele surgiu a hipótese de ser possível criar elementos mais pesados que o Urânio. Isso criou uma corrida entre os principais laboratórios de pesquisa em Fïsica e Química do mundo para saber quem ia descobrir primeiro. Na Inglaterra, tinha a equipe do Rutherford. Na França, a da Irene Curie. Na Itália, a do Enrico Fermi. E na Alemanha a Meitner e o Hahn.

Sabem o que é mais legal nessa história de pesquisa científica? Nenhuma das 4 equipes fazia a menor idéia do que estavam prestes a descobrir. Galera achava que estava atrás de novos elementos que renderiam um Nobel, fama acadêmica e verbas de pesquisa.

Bom, a pesquisa tava indo bem, até que no meio da década de 30 surge um novo fator histórico, um sujeito chamado Adolf Hitler. Esse sujeito tinha um problema muito sério com judeus, e a Lise era judia e trabalhava para o governo, o que podemos chamar de um problemão. Em 1938, após teimar o quanto pôde, ela entendeu que ou vazava da Áustria ou morria, e foi para a Suécia. Só que isso a afastou da pesquisa, justo quando o Hahn tava fazendo mais avanços nos experimentos.

Bombardeando Urânio com nêutrons na esperança de produzir átomos mais pesados, ele fez uma descoberta realmente intrigante. Ao invés de átomos mais pesados, rolava uma liberação de energia muito maior do que a aplicada, e sobrava Bário e Criptônio, mais leves.

Hahn pegou esses resultados e mandou por cartas para a Lise dar uma olhada lá na Suécia, ver se achava alguma explicação boa pro problema. Ela e seu assistente, Otto Frisch, estudaram os resultados, e depois de um tempo formularam uma teoria muito, mas MUITO importante: a teoria de que os nêutrons estavam partindo ao meio os átomos de Urânio, formando átomos mais leves e convertendo parte da massa em energia.

Eles construíram um modelo que não apenas explicava essa quebra como também calculava quanta energia seria liberada. E chamaram esse fenômeno de “fissão nuclear”, a prova de que átomos podiam ser divididos em átomos.

E todos estudaram História e sabem como os governos reagiram à notícia de que aquilo poderia se tornar a maior arma já feita pela humanidade. Lise viveu para assistir as bombas sendo usadas, e na época expressou enorme desgosto pela aplicação de suas descobertas. Ela foi convidada para trabalhar no Projeto Manhattan, mas recusou-se dizendo que não teria nenhuma ligação com nenhuma bomba. Passou o resto da carreira na Suécia, onde ajudou a construir o primeiro reator nuclear do país, fonte de energia e não de destruição.

E agora vamos à segunda puxada de tapete profissional da vida dessa mulher.

Porque uma descoberta dessas proporções CERTAMENTE tinha que render um prêmio Nobel, certo? E de fato rendeu, em 1944. Só que rendeu pro Otto Hahn, como se ele tivesse descoberto tudo sozinho, e nada poderia estar mais longe da verdade. Esse é um dos casos mais icônicos em que o trabalho de uma mulher foi desconsiderado na avaliação do Nobel sobre o mérito de uma descoberta. Meitner comentou em uma carta como achou injusto seu nome e o de seu assistente Otto Frisch não terem sido inclusos no prêmio.

A despeito dessa injustiça, Lise Meitner ganhou tudo quanto foi prêmio científico internacional em tudo quanto foi país. Após o fim da guerra, ela escreveu uma carta criticando pesadamente os cientistas que apoiaram o Reich, incluindo o Hahn. Já velhinha, ela se aposentou e foi morar no Reino Unido, onde faleceu aos 97 anos.

Hoje, a European Physical Society promove anualmente o Prêmio Lise Meitner para avanços em Física Nuclear. E o Centro de Física Gotenburg, na Suécia, promove anualmente o Prêmio Meitner Para Avanços Substanciais na Ciência. Em 1997, o elemento químico número 109 foi batizado oficialmente “Meitnerium”.

Albert Einstein disse de Lise Meitner: “É nossa Marie Curie”.

Lise Meitner é mais um símbolo da luta pela igualdade de oportunidades e de reconhecimento para mulheres na ciência.

E essa foi a de hoje. Obrigado pela paciência, semana que vem tem mais.

Para acessar outros textos da série #Cientwistas, clique aqui.

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