#Cientwistas – Charles David Keeling

Por Victor Caparica

Este foi motivado pelo desastre natural dessa semana em Santa Catarina e pelas reflexões que ele suscitou. Falaremos de um sujeito cujo trabalho nos permitiu entender o grande equívoco que cometíamos e continuamos cometendo com o meio ambiente. E que como a maioria dos é desconhecido da maioria das pessoas, porque não damos muita atenção pra esse tipo de gente.

Charles David Keeling nasceu em 20 de Abril de 1928, nos EUA, e era formado em Química. Desde jovem ele demonstrava grande apreço pela vida próxima à natureza, sendo afeito a viagens para acampar e explorar trilhas em montanhas. Keeling também era músico, quase abandonou a carreira acadêmica pra ser pianista profissional, e sorte nossa que não o fez.

Em 1954 ele concluiu seu doutorado em Química e foi trabalhar de pós-doc na Caltech (California Institute of Technology). Lá ele leu as hipóteses de Svante Arrhenius, outro cientista, sobre uma possibilidade que achou intrigante.

Arrhenius estudava o efeito estufa e temia que a queima de combustíveis fósseis pudesse elevar a temperatura global emitindo CO2. O efeito estufa já era conhecido, , bem como o papel do CO2 como principal regulador térmico do planeta. Mas a comunidade científica duvidava que nossa emissão humana de CO2 pudesse fazer qualquer diferença em escala global. Faltava uma medição.

E foi o Keeling quem resolveu esse problema em 1955, ao desenvolver um método para medição precisa do CO2 em amostras atmosféricas. Foi quando ele entrou pro Instituto Scripps de Oceanografia e recebeu verba para um experimento que mudaria muita coisa na ciência climática. Ele instalou um laboratório para medições de CO2 no vulcão Mauna Loa, no Havaí, e passou um tempão fazendo análises. Essas análises produziram uma quantidade tão grande de informações tão cruciais pro nosso entendimento climático que é até difícil resumir.

Primeiro, ele produziu um gráfico do acúmulo de CO2 na atmosfera, a famosa Curva de Keeling. Isso por si só já mostrava um aumento assustador nas taxas de CO2 ao longo dos anos, mas ainda não bastava. Era preciso saber se aquilo era um processo natural ou se pra variar tinha o nosso dedinho na cagada.

Então ele estudou o ciclo de CO2 do planeta e entendeu a relação do CO2 com os ciclos das plantas durante cada estação. Descobriu que sim há um ciclo anual de aumento e diminuição do CO2 que acompanha as estações do ano e a vida das florestas. Mas também descobriu um jeito de detectar pelos isótopos quanto CO2 da atmosfera vem de queima de combustíveis fósseis. E era muito.

Ele desenvolveu um modelo que funciona bem até hoje pra calcular quanto CO2 queimado de combustível acaba acumulando na atmosfera. E somando tudo formou uma conclusão clara: Há um acúmulo de CO2 em andamento, ele está aquecendo o planeta, e somos nós os responsáveis.

Os dados de Mauna Loa formam o mais longo experimento de mensuração de CO2 na troposfera, e são referência científica até hoje. Eles demonstram aumentos mesmo ao longo do ciclo anual de CO2, e correlacionados com médias de temperatura global se tornam auto-evidentes. Seu método permitiu nas décadas seguintes a descoberta de outros gases estufa se acumulando, como o Metano emitido pelos grandes rebanhos.

Hoje, graças a seu trabalho, somos capazes de calcular até projeções de quanto CO2 em quanto tempo aumentará em quanto a temperatura global.

Só falta fazermos algo a respeito disso.

Charles David Keeling morreu aos 77 anos, vítima de um ataque cardíaco. Recebeu tudo quanto foi homenagem e solenidade do meio científico. Teve 5 filhos, dos quais um, o Dr. Ralph Keeling, é pesquisador no Instituto Scripps de Oceanografia onde trabalha com aquecimento global.

A Curva de Keeling é hoje um símbolo da luta contra a emissão de gases estufa na atmosfera e suas conseqüências catastróficas a longo prazo. Eis sua progressão, de 1960 até 2010:

Keeling curve

Uma boa imagem pra mandar pros negacionistas que dizem não haver dados suficientes para afirmar que há um aquecimento global antropogênico.

E, como Keeling explicou muitas vezes, o aquecimento global é apenas uma parte do problema. Junto com ele vêm mudanças climáticas, perturbações na ordem ambiental à qual nos acostumamos e da qual dependemos. Como por exemplo maior incidência de tornados por ano, o que já foi medido e demonstrado nos EUA.

E assim termina, ou talvez continue com nossas atitudes, a história do de hoje. Semana que vem tem mais.

Adendo ao : Nosso atual Ministro da Ciência e Tecnologia, Aldo Rebello, é negacionista declarado do aquecimento global. Pra ele os 40 anos de trabalho do Keeling e tantos outros pesquisadores não tem o mesmo valor que pra órgãos internacionais de meteorologia.

Para acessar outros textos da série #Cientwistas, clique aqui.

Anúncios
Esse post foi publicado em Cientwistas e marcado , . Guardar link permanente.

Dê sua opinião

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s