Por que políticos precisam da Ciência?

Por Michael Shermer

O Senador Ted Cruz, que anunciou recentemente sua candidatura à indicação do Partido Republicano à presidência dos EUA, pensa, como muitos conservadores, que o aquecimento global não está ocorrendo. Ele disse ao talk show de Seth Meyer em 16 de março que “Os dados de satélite demonstram que nos últimos 17 anos tivemos zero aquecimento, nenhum que seja”

Não há surpresa no uso desse dado por Cruz: 1998, há 17 anos atrás, foi um ano de “El Niño”, com o aumento global das temperaturas sendo inflado por esse fenômeno, com a série histórica das temperaturas retornando depois à taxa gradual de amento registrada normalmente. Quando você olha para todos os dados publicados pela NOAA (e não apenas para dados escolhidos a dedo por se encaixarem com uma ideologia política), o aumento a longo prazo da temperatura global é incontestável.

Não estou dizendo que os liberais* não tem seus próprios problemas com a Ciência. Eles não vêem problemas em protestar contra alimentos transgênicos ou contra a energia nuclear, e ignoram os óbvios benefícios proporcionados pela indústria dos combustíveis fósseis em ter impulsionado os pobres a uma era de prosperidade (assar carne em lareiras improvisadas em cabanas de barro não é um meio eficiente de aquecer casas ou produzir riqueza). Não cabe aqui falar dos grupos anti-vacina, um grupo escandaloso e determinado que é uma pequena minoria em ambos os lados do espectro político.

Os pais fundadores devem estar envergonhados.

Três séculos depois que a Idade da Razão e o Iluminismo deram a inspiração para a Revolução Americana, estamos esquecendo que são as conclusões científicas que devem resolver esses problemas, e não a política partidária. Em relação aos exemplos dados, as conclusões são bastante claras e consistem em que: o aquecimento global existe e foi causado pelo homem, os alimentos transgênicos são seguros e precisamos de todas as fontes de energia possíveis para atender à demanda de nossa população, sempre crescente. Por que, então, estamos tão divididos politicamente em relação a esses pontos? Parece que, em nossa ânsia de encontrar apoio para aquilo que queremos que seja verdade (é um efeito chamado “raciocínio motivado”, impulsionado pelo viés de confirmação, a necessidade de encontrar evidência para aquilo que acreditamos ou desacreditar ou ignorar discursos contrários), nós esquecemos de discernir o que realmente é verdade. Esquecemos como usar a ciência e a razão para resolver questões e utilizamos discursos morais para esclarecer questões científicas.

Aqui está por que nós, e particularmente Ted Cruz, precisamos nos preocupar com isso: o influxo dos princípios científicos na sociedade liderou não apenas o triunfo da ciência, mas também o progresso moral da tradição liberal do Ocidente – sim, até mesmo para democracia americana levantada como “excepcional” por Ted Cruz. Desde a revolução científica dos séculos XVI e XVII, intelectuais tentaram emular grandes cientistas como Galileu e Newton em aplicar os rigorosos métodos das Ciências Naturais para resolver problemas sociais e políticos. O Iluminismo trouxe filósofos como John Locke, Thomas Jefferson, Benjamin Franklin, Alexander Hamilton, James Madison e Thomas Paine – os pais fundadores da América – que colocaram como valor supremo a razão e a investigação científica, liderando uma mudança que levou a valorização dos direitos naturais do homem, como igualdade e liberdade de pensamento e expressão.

De fato, a própria democracia da América está enraizada na análise racional e na investigação científica. Baseado em seu treinamento médico e no pensamento dos maiores cientistas de sua geração, Locke pensou que todo o povo deveria ser tratado igualmente perante a lei. Ele procurou verificar sua teoria empiricamente. E sua teoria encontrou embasamento prático, os países que a aplicaram se desenvolveram.

Considere como a ciência afetou o pensamento dos líderes que criaram o nosso mundo moderno. O Leviatã de Thomas Hobbes, reconhecidamente o maior tratado político já escrito, começa com movimentos atomizados para construir, com base na observação, os primeiros princípios de um sistema social racional e baseado no empirismo (ele chamava a si mesmo de “Galileu da sociedade civil”). Montesquieu, em seu livro O Espírito das Leis, invocou Newton quando comparou um governo que funciona bem com “o sistema do Universo”, incluindo “o poder da gravidade” que “atrai” todos os corpos ao “centro” (monarquia), e empregou o método dedutivo de René Descartes: “Previ os primeiros princípios e tenho visto que os casos particulares seguem naturalmente esses princípios”, disse ele. Por “espírito”, Montesquieu entende “causas”, de onde podem derivar as “Leis” que governam a sociedade. “Leis, em seu significado mais geral, são as relações derivadas da natureza das coisas”, ele disse.

François Quesnay – médico do Rei da França – e seus seguidores (os fisiocratas franceses) desenvolveram um estudo sistemático da economia para o qual foram colhidas evidências empíricas e foram derivados princípios racionais para explicar como economias crescem ou diminuem em função das políticas de governo. Isso impulsionou o filósofo moral iluminista escocês Adam Smith a escrever o texto fundador da economia, hoje conhecido como A Riqueza das Nações. O título completo, de fato, era Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações. Era uma investigação científica para saber a verdadeira natureza e as causas da riqueza, um ponto fora da linha da revolução científica.

Podemos ver que pelos últimos três séculos temos utilizado a ciência para determinar nossos valores morais e isso tem se mostrado o melhor caminho para estruturar a política, a economia, o sistema legal e a sociedade civil. Por esse caminho médicos tem aprimorado a ciência médica e epidemiologistas tem trabalhado para construir uma saúde pública melhor, usando princípios científicos para atenuar pragas, doenças e outras ameaças à humanidade. Nós vamos desistir disso tudo agora?

Desde que os cientistas da época do Iluminismo empreenderam um grande programa de pesquisa para compreender como as sociedades funcionam e como melhorá-las, o arco da moral tem se dobrado em direção à verdade, à justiça e à liberdade. A razão pela qual nossos ancestrais europeus na Idade Média amarravam mulheres inocentes em uma pira e ateavam fogo era a de que eles as consideravam bruxas que causavam a perda de colheitas, anomalias climáticas, doenças e outros infortúnios. Hoje, nos abstemos de queimar mulheres na fogueira não porque o governo proíbe isso, mas porque temos uma compreensão científica desses infortúnios e doenças. O que era uma questão moral e religiosa agora é uma não questão, lançada fora pela nossa consciência – e a nossa consciência, munida de naturalismo e de ciência, agora tem uma visão de mundo baseada na razão.

A ciência e a razão derrubaram uma série de mitos: o de que os deuses precisam de sacrifícios animais e humanos, o de que as pessoas são possuídas por demônios, o de que judeus causam pragas e doenças, o de que existem raças superiores às outras, o de que as mulheres são fracas demais para comandar empresas ou países, o de que os animais são autômatos e não sentem dor, o de que os reis comandam países por direito divino, e muitas outras crendices que as pessoas com um conhecimento científico mínimo abominam, por não terem respaldo na realidade.

Nós não estamos tão longe dessas crendices quanto nós pensávamos estar.

Líderes republicanos e democratas podem não ver a conexão entre suas posições atuais sobre aquecimento global e alimentos transgênicos e coisas como a caça às bruxas ou a escravidão. Mas os nossos conceitos modernos de governança surgiram de nossa capacidade de aplicar a ciência e a razão para lidar com todos os nossos problemas, incluindo os problemas humanos e sociais. No longo prazo, precisamos deixar de lado as posições dos dois partidos que causam controvérsias em temas como mudança climática, política energética e vacinação, voltando a fazer o que sempre fizemos e aplicando a ciência e a razão para resolver os nossos problemas sociais, para que o nosso arco moral se incline cada vez mais em direção ao aperfeiçoamento da humanidade. É o que os pais fundadores gostariam.

Publicado originalmente no Politico Magazine. Traduzido pela Editoria Além do Laboratório

*NOTA DO TRADUTOR: Nos EUA, ao contrário do Brasil, “liberal” designa uma parcela da população mais “leftist”, identificada, em sua maioria, com o Partido Democrata, com posições mais progressistas que os “conservadores”, identificados em sua maioria com o Partido Republicano.

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