#Cientwistas – Vera Rubin

Por Victor Caparica

O de hoje trata de uma questão ainda em aberto na ciência, e de como uma mulher descobriu esse problema. Um problema, aliás, que ilustra muito bem como na ciência os fatos observáveis prevalecem sobre as teorias estabelecidas.

Vera Rubin nasceu em 23 de Julho de 1928, na Filadélfia, EUA, filha de um casal de estrangeiros. Seus pais desde muito cedo se preocuparam em dar estudos às duas filhas, acreditando que seria o que as emanciparia na vida.

Com 10 anos ela se mudou com a família para Washington DC, onde seu pai trabalhava como eletricista e sua mãe como projetista na Bell. Lá ela conheceu um planetário, onde nasceu sua paixão pela astronomia, que se tornou sua profissão.

Ela se graduou muito jovem, e queria ir para Princeton fazer pós em Astronomia. Só que Princeton não aceitou mulheres no departamento de Astronomia até 1975. Sim, Setenta e Cinco, MUITO recente. Então azar da Princeton, porque ela foi pra Cornell University, que não tinha mais essa estupidez institucional. Ela se formou, tendo trabalhado com gênios como Richard Feynmann, que um dia certamente aparecerá nos .

Em 1962, ela se torna a primeira professora mulher na Astronomia da Georgetown University. E, em 1965, a primeira mulher a ter autorização para operar os telescópios fodões do Observatório de Palomar.

Foi quando ela começou a observar galáxias com mais atenção, e reparou duas coisinhas que ninguém tinha reparado. Primeiro, ela pegou o movimento da Via Láctea e comparou com o da radiação de fundo observada no Universo. Depois, pegou esse mesmo movimento da Via Láctea e comparou com o de diversas galáxias próximas.

E descobriu que, ao contrário do que pensávamos, as galáxias não estão voando cada uma numa direção aleatória. Elas formam blocos. Elas orbitam umas às outras, e se movem em grupos que a Vera chamou de Galaxy Clusters, o nome que usamos até hoje.

Mas essa foi a primeira observação. A segunda teve um impacto bem maior na Astronomia. Ela estava observando galáxias, mais exatamente a de Andrômeda, nossa vizinha, e notou uma coisa estranha. Os corpos presentes na galáxia, especialmente nas bordas dela, estavam se movendo muito rápido, orbitando muito rápido. Rápido demais.

Na velocidade que ela observava eles orbitando a galáxia, eles deveriam estar sendo arremessados pra fora dela pela força centrífuga. Mas não estavam, e não estão, o que sugere que alguma força está segurando essas estrelas lá, prendendo-as.

E aí surge o que a Vera chamou de “Problema da Rotação das Galáxias”, algo que ela observou em todas as outras, não só em Andrômeda. Na velocidade que as bordas das galáxias estão girando, seu conteúdo deveria estar sendo ejetado pela força centrífuga, mas não está.

Nós só conhecemos uma força capaz de manter tanta matéria agrupada mesmo contra tanta força tentando separá-la, e é a gravidade. E até onde nosso limitado saber do Universo nos diz, só matéria produz gravidade. Então a gente conta quanta matéria parece ter nas galáxias, coisa que nossos telescópios já permitem, e aí vem o susto.

Porque a Física Newtoniana é realmente muito boa nisso de calcular a massa e o efeito gravitacional de corpos, a conta sempre bate. Daí a gente olha pras galáxias, contabiliza quanta gravidade deveria estar sendo exercida pela matéria que observamos… e a conta não bate. Mas assim, não bate por MUITO, era pra conta dar digamos 30 e dá mais de 300. Tinha algo muito errado.

Bem, temos aqui uma série de fatos.

1. As Galáxias giram rápido demais pra matéria que observamos mantê-las agrupadas com sua gravidade, elas deviam estar se despedaçando.

2. Elas não estão se despedaçando, o que nos leva a crer que existe muita gravidade impedindo isso.

3. Quando contamos a matéria nessas galáxias, falta matéria pra perfazer toda aquela gravidade. Na verdade, falta 90%.

Conclusão lógica? Temos algumas, mas ciência não é filosofia, não basta fazer sentido.

A mais prestigiada pela ciência hoje é a famosa teoria da Matéria Escura, ou Dark Matter. É a solução mais simples. Só matéria gera gravidade, e se tem gravidade então tem matéria. E se não podemos vê-la, então é um tipo de matéria que não emite radiação, algo que francamente desconhecemos hoje. Então, matéria porque gera gravidade, e escura porque não podemos vê-la, só observar e quantificar sua influência.

A Matéria Escura é hoje o mais importante mistério ainda não solucionado na Astronomia, há MUITA pesquisa sobre o assunto. E a organização das galáxias em clusters nos permitiu compreender sua evolução e, conseqüentemente, a história e evolução do Universo.

Tudo isso descoberto por uma cientista que foi acolhida pela Cornell University, porque a Princeton não aceitava mulheres na Astronomia.

Vera Rubin foi contemplada com uma quantidade de homenagens, prêmios e medalhas científicas que não caberiam aqui.

Ela própria não acredita muito na hipótese da Matéria Escura. Ela acha mais provável isso ser algum aspecto da mecânica newtoniana ainda a ser explicado pela Física, não um novo tipo de matéria.

Vera Rubin tem três filhos e uma filha, hoje todos cientistas. Hoje, aos 93 anos, ela dedica seu tempo, fama e recursos a fomentar a entrada e permanência de mulheres no meio científico. É uma das maiores ativistas pela igualdade de gêneros nas cadeiras da Associação Nacional de Ciências, nos EUA.

E essa, pessoas, é a professora Vera Rubin, a de hoje. Obrigado pela paciência, semana que vem tem mais.

Ah, faltou uma última consideração na história da Vera Rubin:

Chupa, Princeton!

Pronto, agora tá completo 🙂

Para acessar outros textos da série #Cientwistas, clique aqui.

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