#Cientwistas – Nikola Tesla

Por Victor Caparica

Hoje falarei sobre um dos inventores que mais se aproximou daquele estereótipo de supergênio da ficção científica. E não seria exagero algum dizer que, juntamente com Michael Faraday, esse é um dos dois cientistas cujo trabalho mais afeta nossas vidas. Nascido em 1856 numa região do então Império Austríaco, atualmente Croácia, nosso herói foi o quarto de cinco filhos, e se chamava Nikola.

Seu pai, Milutin Tesla, era padre da Igreja Ortodoxa, e a princípio queria muito que o pequeno Nikola seguisse seus passos. Só que de sua mãe o menino herdou a criatividade e uma memória quase infalível que o fizeram se destacar muito nos estudos. Muito MESMO.

No Ensino Médio ele resolvia problemas de Cálculo Integral de cabeça, e deixem-me esclarecer isso pro pessoal de Humanas: É difícil. Mas seu pai seguia com planos clericais pro rapaz, até que, vejam só, Deus em pessoa decidiu intervir!

Porque o jovem Nikola pegou Cólera, e a doença foi tão feia e ele passou tantas vezes tão perto de morrer que seu pai fez uma promessa. Jurou que se o menino ficasse bom ele faria o que fosse preciso para mandá-lo pra melhor escola de engenharia que houvesse. Não me perguntem a lógica, eu só relato as histórias, mas ele achou que seu filho engenheiro alegraria mais a Deus do que como sacerdote. Sorte nossa, pois o rapaz efetivamente se curou da doença e foi estudar engenharia, porque promessa é dívida.

Ele entrou na Politécnica de Graz, na Áustria, e se tornou o aluno mais extraordinário da instituição. Ele trabalhava 20 horas por dia, fazia o dobro dos exames exigidos, nunca perdia uma aula e tinha as melhores notas da escola.

Seus professores primeiro escreveram pro seu pai dizendo que ele era “uma estrela de primeiro escalão”. Depois escreveram de novo dizendo que se ele não fosse removido da escola acabaria se matando de exaustão com tantas horas de trabalho.

Não foi preciso, porque ele mesmo largou a escola para… jogar baralho?! Sim, jogar baralho. Porque nosso cientista era viciado em jogatina e no terceiro ano perdeu e reganhou todo seu dinheiro nas cartas.

Com 23 anos ele teve uma crise nervosa, cansou daquilo tudo, mandou todos pro inferno e foi pra Budapeste trabalhar, e tchau faculdade. Lá ele trabalhou como eletricista-chefe numa empresa de telégrafo, e de lá foi contratado pela Edison Company de Paris no ano de 1882. O mesmo ano em que ele descobre o Campo Magnético Rotativo, uma propriedade do eletromagnetismo que ele aplicou em seu Motor de Indução.

Esse Motor de Indução não era o primeiro motor elétrico, Michael Faraday fez essa descoberta uns 60 anos antes. Mas o de indução operava diretamente em corrente alternada, sem conversão pra contínua, uma vantagem enorme que barateava as coisas. O motor elétrico do ventilador do seu quarto, que liga direto na tomada sem precisar de fonte, é de indução, opera em corrente alternada.

Bem, 2 anos depois disso a Edison Company o enviou para o escritório principal em Nova York, e ele foi trabalhar como engenheiro eletricista. E foi aí que Thomas Edison e Nikola Tesla, dois dos maiores inventores de todos os tempos, trabalharam juntos, por um curto período. Há muita crítica a ser feita ao Edison, mas nenhuma muda o fato de ele ter inventado muita coisa importante e financiado muita pesquisa.

A relação dos dois nunca foi boa. Começou com o Edison dando um calote de 50 mil dólares no Tesla, na época uma fábula de dinheiro. O Edison falou que quem resolvesse um problema dos geradores elétricos ganharia 50 mil doletas, e o Tesla, bem, ele foi lá e resolveu. E quando chegou pra cobrar ouviu um “Tesla, você não entende o humor americano, toma aqui um aumentinho no salário!” Ele mandou o pilantra à merda e saiu da Edison Company e, depois de um tempo trabalhando de pedreiro, achou investidores pros seus projetos.

Vamos contextualizar rapidamente aqui a questão das correntes elétricas conforme ocorria na época. Já existiam e ainda existem 2 jeitos de transmitir eletricidade pelos fios: Corrente Alternada e Corrente Contínua. Ou Alternate Current e Direct Current, AC/DC. E você achando que o nome da banda tinha a ver com Cristo.

A Corrente Contínua era o sistema usado pela Edison Company, e alimentava os motores e lâmpadas da época operando com baixa voltagem.

A Corrente Alternada utilizava-se de uma sacada técnica que não cabe explicar aqui mas que gerava uma vantagem fácil de entender: Nela a voltagem podia ser muito alta sem dissipar tanto calor pelo fio, e isso facilitava a transmissão e barateava a eletricidade.

Resultado? Galera começou a olhar a Corrente Contínua da Edison Company e achar que tava muito caro e não valia a pena, enquanto a Tesla Electric já montava redes elétricas, motores e lâmpadas, tudo em sistemas de corrente alternada, tudo bem mais barato. E por que não se usava AC antes? Porque os aparelhos existentes (lâmpadas e motores) só trabalhavam em DC. Até o Tesla desenhar modelos AC.

E assim, apesar dos esforços contrários de Thomas Edison, a Corrente Alternada se tornou o padrão de distribuição elétrica, usado até hoje.

A essa altura nosso amigo Tesla já tinha a famosa “moral com a galera”, e conseguia investimentos sem muito esforço. O que não necessariamente foi algo bom, já que o cara tinha idéias mirabolantes que com os investimentos viraram protótipos. Mas quando digo “mirabolantes”, quero dizer coisa de cientista maluco da sci-fi, querem exemplos?

Primeiro ele pensou numa máquina que criaria oscilações cumulativas capazes de gerar terremotos e, no limite, fragmentar o globo terrestre. Daí ele pensou num gerador de raios elétricos imensos, que batizou de “Raio da Morte”. Sério. Sério mesmo, que nem nas sci-fi.

É difícil falar de todos os inventos desse sujeito, porque em geral ele não inventava objetos de uso cotidiano, mas tecnologias de base. Seus inventos eram os tijolinhos imprescindíveis que permitiram a construção de grandes coisas que fazem parte do nosso dia-a-dia.

Por exemplo, a Bobina de Tesla, usada pra criar correntes de alta voltagem. Uma versão dela é usada nas ignições de carros hoje. Outro exemplo são as antenas, sintonizadores e afins ligados à transmissão sem fio, que ele inventou bem antes do Marconi usar no seu rádio.

Ele não apenas inventou a lâmpada fluorescente e a lâmpada neon, ele já teve de cara a idéia de moldá-las na forma de letreiros. E quando nosso amigo descobriu que com sua bobina podia gerar freqüências tão altas que não atravessariam a pele humana, ele teve uma idéia. Uma aplicação dela é mostrada em uma das mais emblemáticas fotos de Nikola Tesla, a lâmpada sem fios:

Tesla-bulb

Mas a mente do cara tinha uma aplicação melhor, que tomou a forma da Wardenclyffe Tower, seu maior e mais desastroso projeto. A idéia era uma torre que usaria sua bobina para transmitir sem fio tanto eletricidade quanto conteúdo a distâncias transoceânicas. Esse projeto consumiu todo o tempo, todo o dinheiro e toda a reputação de Tesla, e no final não foi concluído por falta de verbas.

Sua última patente registrada foi o modelo de um avião que custaria menos de 1000 dólares para fabricar e que decolaria na vertical.

Seus últimos anos foram vividos no hotel New Yorker, pago com uma pensãozinha dada pela Westinghouse como uma dívida moral. Em Janeiro de 1943, Tesla morreu sozinho em seu quarto de hotel, vítima de trombose coronária, aos 86 anos.

Ao lado de Albert Einstein, Nikola Tesla é um dos cientistas mais homenageados na cultura popular de nosso tempo.

Hoje a densidade de fluxos magnéticos é medida em Teslas. Da Croácia até as Cataratas do Niágara, há estátuas de Tesla por toda parte, relembrando seu papel na construção da modernidade.

Em 2006, ninguém menos que David Bowie interpretou Nikola Tesla no filme “The Prestige”. Não é um filme bom, já aviso, mas tem o Bowie. (na verdade é um filme bem ruim)

Esse foi o mais longo até aqui, e mesmo assim a maior parte das invenções mais relevantes do sujeito ficaram de fora.

Vou finalizar contando que Nikola Tesla tinha um apreço enorme por pombos, e os alimentava regularmente em seus passeios em Nova York. Um desses bichinhos ele encontrou ferido, quase morto, e resgatou e tratou até curar, e virou seu pombo de estimação. Esse bicho virou sua companhia nos últimos anos de vida, quando Tesla lidava com a pobreza e a falta de reconhecimento por seu trabalho.

Enfim, pessoas, esse foi o de hoje. Semana que vem tem mais. Grato pela habitual paciência.

Para acessar outros textos da série #Cientwistas, clique aqui.

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Uma resposta para #Cientwistas – Nikola Tesla

  1. Guilherme Syx disse:

    Que historia incrível! me lembro de ter assistido a um documentário sobre a história do Tesla há muitos anos, e não lembrava de quase nada. #Cientwistas

    Curtir

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