Vamos conversar um pouco sobre educação?

Sala de aula multidisciplinar na Finlândia (Fonte: www.rescola.com.br)

Sala de aula multidisciplinar na Finlândia (Fonte: http://www.rescola.com.br)

A Finlândia já há algum tempo tem o melhor sistema educacional do mundo. Qual é o segredo desse sistema? A formação de pessoas com senso crítico e que trabalhem de forma colaborativa. Nas palavras de Jae Kim:

É um sistema educacional construído ao redor do aprendizado colaborativo. Não há vencedores ou perdedores. Todos tem atenção individualizada dos professores, muito empoderados. Os estudantes na Finlândia ficam menos tempo na escola que em outros países industrializados, mas conseguem os melhores desempenhos nos rankings acadêmicos.

Esse modelo de ensino colaborativo é corroborado por uma nova revolução que tem sido promovida pelo sistema educacional do país: a da extinção das matérias formais. Essa inovação,que pode parecer um pouco revolucionária demais para os pedagogos mais conservadores, consiste em trocar a abordagem comum, em que as matérias são “caixinhas” que se comunicam muito pouco, por uma abordagem fenomenológica, em que as matérias são estudadas por temas em um contexto interdisciplinar. Essa metolodogia de ensino já tem sido largamente aplicada em Helsinki e arredores, e deve se espalhar nos próximos anos para todo o país.

Inspirador, não? Ok, vamos olhar para o Brasil então.

O Brasil segue em má posição no PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes). Além disso, a discussão sobre o tema se perde cada vez mais por aqui. Além de não termos ainda viabilizado o Plano Nacional de Educação, aprovado em 2014, atualmente não temos Ministro da Educação efetivo, porque o ministro anterior saiu após uma briga totalmente infantil com a Câmara dos Deputados.

Falando em Câmara dos Deputados, no Legislativo a coisa é ainda pior. A Comissão de Educação da Câmara dos Deputados fez um debate sobre “doutrinação ideológica em escolas”. É isso mesmo: enquanto a Finlândia desenvolve sua educação, tornando-a multidisciplinar em seu âmago, o Brasil acha que as pessoas estão fazendo “doutrinação ideológica” em escolas e “espalhando o comunismo”.

Pra começar, a “doutrinação ideológica” pressupõe que haja um movimento coordenado para incutir nos alunos uma determinada ideologia. Isso ocorreu, por exemplo, durante a ditadura militar, em que matérias como OSPB (Organização Social e Política do Brasil) e Educação Moral e Cívica tinham como função doutrinar as pessoas no nacionalismo ufanista “nós contra eles” imposto pelo regime militar.

Hoje existe doutrinação ideológica? É possível afirmar categoricamente que não. Porque, pra começar, não existe nem mesmo um movimento coordenado de influência no aprendizado dos alunos, em qualquer direção ideológica que seja. A falta de coordenação temática na educação é tão grande que jamais um sistema como o finlandês poderia ser implantado aqui. Os professores não conseguem nem mesmo enxergar as disciplinas numa abordagem multidisciplinar, na maioria dos casos.

E nem é culpa dos professores: eles são mal preparados, mal remunerados e vivem em ambientes com pouquíssima segurança, recebendo ameaças constantes de alunos e de seus pais. Em alguns casos, até sofrendo agressão física. Esse ambiente degenerado não serve nem mesmo para os alunos terem uma noção mínima de interpretação de texto e de operações fundamentais, quanto mais para “doutrinação ideológica”.

E por que o discurso da “doutrinação ideológica”? Porque a contestação ao sistema educacional é uma estratégia chave para espalhar discursos de ódio ou arroubos conspiratórios/religiosos sem nenhum embasamento científico. É uma lógica concorrencial: você só pode espalhar sofismas com sucesso se contesta o sistema vigente.

O sistema vigente é ruim e degenerado, sofrendo todos os tipos de boicotes possíveis. Mas os discursos sofismáticos, espalhados por “filósofos de cadeira” e por páginas virulentas em redes sociais, não podem adquirir legitimidade nesse contexto. E por que adquirem? Simples: no Brasil, 38% das pessoas que estão na faculdade não sabem ler direito. No ensino fundamental e médio, essa porcentagem deve ser ainda maior. Nesse cenário de ignorância, discursos pouco plausíveis e sem nenhum embasamento científico ganham espaço.

E daí o que se cria? Uma geração de gente que ao mesmo tempo é ignorante e arrogante. O grande derrotado é o senso crítico, ensinado de maneira débil nas escolas e ainda acusado pelos teóricos da ignorância de ser “doutrinação”. E esses teóricos influenciam a política nacional. E são aplaudidos de pé por militantes da ignorância, que espalham mensagens contra um determinado tipo de conhecimento, porque sonham com uma sociedade totalitária firmada em um pensamento único, como ocorreu durante a ditadura militar. Não à toa, alguns desses defendem abertamente a volta do regime dos generais.

Só que agora há um novo parâmetro na equação: a tecnologia tornou muito mais fácil o compartilhamento de informações. E o uso da tecnologia sem o desenvolvimento do senso crítico só gera a imposição da ignorância sobre a sabedoria, tornando o mundo um lugar muito pior. Como já afirmava Carl Sagan:

“A ciência é mais do que um corpo de conhecimento, é um modo de pensar. Tenho um pressentimento sobre a América do Norte dos tempos de meus filhos ou de meus netos quando os Estados Unidos serão uma economia de serviços e informações; quando quase todas as principais indústrias manufatureiras terão fugido para outros países; quando tremendos poderes tecnológicos estarão nas mãos de uns poucos, e nenhum representante do interesse público poderá sequer compreender do que se trata; quando as pessoas terão perdido a capacidade de estabelecer seus próprios compromissos ou questionar compreensivelmente os das autoridades;” (Sagan, 1996, pp. 31-32)

Em uma sociedade dominada pela tecnologia e pela ignorância, o “textão” vira algo pejorativo. A análise crítica é desnecessária, muito por conta da incapacidade de compreensão por parte da maioria. E a ciência é a grande perdedora, dando margem a delírios conspiratórios e à profusão de discursos deliberadamente mentirosos, feitos sob medida para o atendimento de interesses escusos.

A solução? Resgatar a importância do senso crítico, na escola, na vida profissional, na política, no pensamento científico, em todas as esferas da vida. Não é rápido em nem fácil fazer isso. A educação finlandesa não começou a se desenvolver hoje. Mas os princípios da colaboração e da ausência de vencedores e de perdedores podem começar a ser praticados desde já.

ERRATA

A Finlândia NÃO vai abolir o currículo tradicional nas escolas. Apesar de trabalhar a interdisciplinaridade e incentivar projetos interdisciplinares de algumas semanas à partir de 2016, o sistema de ensino finlandês vai manter as matérias tradicionais, como esclarece o Gizmodo. O mal entendido foi provocado pela repercussão de um texto publicado no The Independent.

Isso não invalida as demais informações trazidas no texto (e nem a qualidade do sistema de ensino finlandês)

Referências

SAGAN, C, O Mundo Assombrado Pelos Demônios, Companhia das Letras, São Paulo, 1996

Anúncios
Esse post foi publicado em Ciência na Escola, política de C&T e marcado , . Guardar link permanente.

3 respostas para Vamos conversar um pouco sobre educação?

  1. Que eu saiba o Brasil já gasta mais dinheiro em “educação” do que muitos países lá fora de educação melhor. Será que dá pra simplesmente pegar algo que parece dar certo no Primeiro Mundo e aplicar aqui? Será que o Estado pode causar tamanha transformação na realidade? De uma perspectiva socialista clássica, a social-democracia seria melhor implantada dentro de países que já estariam numa etapa avançada do capitalismo.

    Mas eu parei pra ler o artigo e fiquei impressionado. Fui educado ouvindo que Lênin era brilhante, Rousseau estava certo sobre a propriedade ser um roubo e que não havia diferença entre uma cadeira e uma pessoa. Minhas apostilas ensinavam que o Materialismo Dialético (conforme grades de ensino médio divulgadas oficialmente) era a filosofia superior e religião não tinha fundamentação intelectual. Viktor Frankl pôs os campos de concentração na conta de quem admira os intelectuais que fundamentaram uma ideologia homicida. Eu incluo na lista de inimigos da raça humana articulistas que fingem que eles não existem.

    A idéia de que as comunidades deveriam ser ativas na educação é excelente. Pena que o governo muitas vezes prejudique a autonomia de famílias e dificulte a participação de certas comunidades

    Como alguém que foi forçado a ser educado no ensino médio por uma comunidade que jamais admitiu a existência de uma opinião além da sua, nunca citou nenhuma tese série sobre Marx, Hegel, ou quanto mais Mises, só repetiu seus gritos de guerra de esquerda sem nem incentivar a reflexão teórica sobre a esquerda, prefiro me educar sozinho lendo Kierkegaard e filosofia protestante holandesa.

    Mas afinal de contas, quem é a comunidade para achar que pode me educar compulsoriamente ou de mim tirar o dinheiro quase inexistente para isso? Gente que sequer sabe quem foi Dooyeweerd? Aha.

    Eu rio quando um grupo quer me educar sobre senso crítico sem nem ao menos conseguir fundamentar completamente sua epistemologia numa discussão contra mim (assunto que estudo desde a escola)

    E mais uma vez eu agradeço o sr. “Não pesquisei a grade curricular oficial, não sei nenhum nome de pensadores importantes contrários ao meu pensamento e nem vi vídeos oficiais de professores se reunindo em nome do marxismo a despeito da opinião dos pais” (que são a primeira comunidade por acobertar todo material apoiado pelo Estado que reduziu a dignidade do ser humano da mesma maneira que grandes democidas.Que pessoas como você sejam lembradas para sempre.

    Curtir

  2. Vamos por partes:

    1) O Brasil tem um déficit histórico com a educação, tanto que a universalização, pelas estatísticas, só chegou nos anos 90. E isso não quer dizer que todos efetivamente se formam, porque para conseguir universalizar o ensino a qualidade foi colocada em último plano. E, sim, a verba é muito mal administrada, não há boa “gestão pública” no sentido de aumentar a eficiência, a eficácia e a efetividade das políticas, sendo isso ainda mais grave no nível fundamental e no nível médio.

    2) Ninguém está falando que a educação “que você teria na escola” é exemplo. Uma educação em que o senso crítico é incentivado não é uma educação que não ensina nenhuma grande corrente filosófica: é uma educação que ensina todas as correntes que foram importantes e que ajuda o aluno a elencar méritos e críticas relativos a cada uma das correntes, inserindo-as em seu contexto histórico.

    3) É realmente impressionante notar, ao mesmo tempo, o desprezo pela educação formal baseado em uma única vivência e o desprezo ao texto por “falta de fundamentação epistemológica”. Ora, esse é um texto simplório, uma contraposição entre um bom exemplo (Finlândia), com um mau exemplo (Brasil), e da deturpação do objeto de análise que faz o exemplo ruim ficar ainda pior. Um pontapé inicial em uma eventual discussão. O próximo passo é exigir rigor epistemológico de textos de Facebook também.

    A questão é que existe uma diferença entre “aprender coisas fora da educação formal”, que é enriquecedor e contribui para uma formação profissional e pessoal mais completa, e “prescindir da educação formal, voltando-se contra ela”. Eu DUVIDO que alguém tenha aprendido na aula de matemática que “Lênin é bom”. Também duvido que alguém tenha usado a aula de Física ou de Química pra mostrar “os efeitos da exploração da mais valia em alguém”.

    Falar em doutrinação ideológica é ridículo. E é o típico discurso “acuso você daquilo que estou fazendo”, porque a coisa mais próxima de doutrinação ideológica que existe no Brasil hoje é a cooptação do pensamento de muita gente via redes sociais, através de gente como o Olavo de Carvalho, de páginas como “TV Revolta”, e de gente que se pretende séria tomando a base acadêmica liberal (que deve ser estudada, óbvio) com a mesma abordagem religiosa que a minoria marxista “que quer fazer a revolução”, só que do outro lado do espectro ideológico.

    Curtir

  3. Vi recentemente umas palestras do Ken Robinson no TED, todas sobre educação. Bem resumidamente, ele fala sobre como precisamos ver a educação de uma forma mais orgânica e menos sistemática, com menos jeito de fábrica. Nessa última que eu vi, ele cita inclusive a Finlândia quando fala sobre as taxas de evasão escolar (que não existe na Finlândia).

    Se interessar, o link é esse: http://www.ted.com/talks/ken_robinson_how_to_escape_education_s_death_valley

    Curtido por 1 pessoa

Dê sua opinião

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s