#Cientwistas – Michael Faraday

Por Victor Caparica

Hoje vou contar pra vocês a história dum sujeito cujo trabalho me permite hoje contar essa história pra vocês. Um sujeito cuja história ensina duas coisas importantíssimas sobre o pensamento científico:

Primeiro, que para a Ciência o que importa são as idéias, e não a classe social de quem as tem.

Segundo, que genialidade científica e religiosidade não são necessariamente coisas opostas.

Esse sujeito nasceu num bairro paupérrimo de Londres, em 1821, e se chamava Michael Faraday.

Na infância, como não deve surpreender ninguém, ele tinha sérios problemas com o método de ensino escolar e era um péssimo aluno. Ele largou a escola ainda criança, porque o ambiente não ensinava nada e o oprimia por várias questões, inclusive um problema de dicção.

Com 13 anos ele foi trabalhar de assistente num encadernador de livros,e de noite ficava lendo esses livros. Um desses livros foi “Conversations on Electricity”, duma cientista chamada Jane Marcet. Esse livro mudou a história do mundo. Porque foi esse livro que fez nosso amigo Faraday se apaixonar pela eletricidade e ir assistir uma palestra do Humphry Davy no Royal Institute.

O Dr. Humphry Davy era tipo o cientista mais foda da época na Inglaterra, e estudava eletricidade e magnetismo, e simpatizou com o Faraday. Ele virou secretário do Davy, e depois assistente técnico, mesmo sendo um plebeu sem educação formal. Porque o Davy se ligou que ele era foda.

Só que ser foda não é ser igual, e o Faraday foi tratado a vida toda como um plebeu, principalmente pelo Dr. Davy e sua esposa. Numa viagem que fez com o Davy, ele tinha que dormir fora do vagão, porque gentlemen não dormiam na presença de plebeus.

Vamos agora às descobertas feitas por esse plebeu no laboratório do Royal Institute of London, e às conseqüências que elas tiveram:

Ele descobriu que através de uma corrente elétrica você pode movimentar magneticamente uma barra metálica. Eletricidade em movimento. Todos os motores elétricos do mundo, do seu ventilador à ignição do seu carro, usam esse mecanismo que ele descobriu, o motor homopolar. Sabem outra aplicação da interação entre magnetismo e eletricidade? As caixas de som que uso agora pra ouvir o que digito.

Mas calma que vai ficar melhor, porque o homem tava on fire com a história das interações da eletricidade e queria ver o oco. Ele encasquetou, e tinha bons motivos pra tanto, que não era só eletricidade e magnetismo, mas que a luz também tava no mesmo clube.

E projetou um experimento, e provou que podia mover um feixe polarizado de luz com um campo magnético. Chamamos isso de Efeito Faraday. Partiu do trabalho dele nosso conhecimento atual de que essas três forças são a mesma. Mas e aí, e a gente com isso?Uma das aplicações de poder manipular luz com magnetismo é a tela onde você está lendo essa história. Eis a gente com isso.

Ufa! Acabou? Acabou merda nenhuma, tamos falando do maior inventor de seu tempo, um dos maiores de todos os tempos.

Um belo dia ele chegou pra galera com um desdobramento lógico do seu motor elétrico. Consistia de esfregar um ímã numa barra de metal, pq ele descobriu que isso produzia corrente elétrica. Hoje se chama “Gerador”. Parte da maravilha de as pessoas não morrerem todas quando acaba a eletricidade num Hospital se deve a essa descoberta.

E agora, acabou? Não, ainda tem tanta coisa, mas vou resumir só listando uns nomes aqui:

Lei da Indução de Faraday, Constante de Faraday, Leis da Eletrólise de Faraday, Paradoxo de Faraday, Rotor de Faraday, Onda de Faraday… Peguei só os mais famosos, deixei uns 10 conceitos de fora, todos com o nome dele, todos descobertas dele.

No fim da vida, Michael Faraday foi assolado por uma doença mental que gradativamente deteriorou sua memória de curto e longo prazo. Isso não o impediu de dar 19 palestras em um evento chamado “Palestras de Natal”, que ele criou para divulgar a Ciência.

Ele acreditava no poder da educação, e dizia que o conhecimento poderia emancipar outras pessoas como foi com ele. Essas palestras continuaram após sua morte, e continuam até hoje. Carl Sagan já palestrou lá.

Michael Faraday era cristão fervoroso e foi diácono da Church of Scotland.

Recusou duas vezes a presidência da Royal Society, e recusou um título de nobreza da Rainha. Ele dizia que apenas “Mr. Faraday” soava melhor a seus ouvidos do que “Sir Faraday” ou “Doctor Faraday”.

Ele também recusou o jazigo que lhe foi oferecido para após sua morte ser enterrado ao lado de Isaac Newton. Não, no cemitério onde tá o Newton e o Darwin tem uma placa em homenagem ao Faraday, mas ele não foi enterrado lá porque achou que não precisava.

Na época já existia patente de invenção. E muita gente ficava milionário com isso. Mas o Faraday publicou tudo no Creative Commons da época. Ele não patenteou nada, as coisas têm o nome dele por reconhecimento, tudo que ele inventou ele entregou de graça pra humanidade.

Provavelmente o copyleft mais importante de todos os tempos.

Ah, duas últimas coisas sobre ele. Primeiro, Einstein tinha duas imagens na escrivaninha, uma de Isaac Newton e outra de Michael Faraday. E o Maxwell, das Equações de Maxwell, disse que Michael Faraday foi um tipo de cientista que as gerações futuras deveriam ter como exemplo.

E é meu cientista favorito, de todos os tempos. E foi um prazer enorme contar um pouco da história dele pra vocês. ❤

Com ajuda do Cogita Tuti na compilação dos dados

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Uma resposta para #Cientwistas – Michael Faraday

  1. Adorei esse post cara. O estilo, a paixão. Fantástico.

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