#Cientwistas – Marie Curie

Por Victor Caparica

A cientista de hoje começa sua história na clandestinidade dos oprimidos pelo governo.

Vamos até o finalzinho do século XVIII, e vamos para a Polônia, que na época era território ocupado e sofria várias sanções. Uma dessas sanções foi a proibição imposta pelo Império Russo sobre instituições de ensino superior na Polônia. Não podia e acabou. Também não podia ter educação de nenhum tipo para mulheres, mas isso nem de longe foi exclusividade histórica deles, não é mesmo?

Só que lá rolou uma iniciativa chamada “Universidade Flutuante de Varsóvia”, uma idéia subversiva e maravilhosa. Eram cursos clandestinos, feitos escondidos do governo, e que aceitavam todos como alunos, mulheres inclusive eram muito bem-vindas.

Essa Universidade clandestina formou uma quantidade enorme de pessoas que depois fizeram muita diferença no mundo com o que aprenderam. Mas nenhuma delas mais do que uma mulher que na época se chamava Maria Salomea Sklodowska.

Ela nasceu em 1867, quinta filha de um casal de professores muito conhecidos e respeitados em Varsóvia. Apesar de famosos, seus pais se envolveram na luta política pela independência da Polônia, e quando não rolou eles perderam tudo que tinham.

Ela se formou com distinção no ensino regular, mas sabem como é, as autoridades da época não queriam saber de mulher estudando muito. Só que ela e sua irmã mais velha discordavam dessa bobagem, e foram assistir as aulas clandestinas na Universidade Flutuante de Varsóvia.

Pra quem quiser ler mais sobre essa instituição de ensino (em inglês):
http://en.wikipedia.org/wiki/Flying_University

E ela estudou, e aprendeu, e ficou boa naquilo que estudava, e conseguiu ir trabalhar em um laboratório dirigido por um primo.

Aceleremos a história. Ela já entendia bastante de Física e Matemática quando sua irmã, a que estudou com ela, a chamou pra morar em Paris. Ela tava casada e chamou a Maria pra ir morar lá e continuar seus estudos num país um pouco menos medieval. E a Maria foi.

Maria ou Marie, como os franceses a chamavam. Ela entrou na Universidade de Paris e ralou muito pra se formar, muito mesmo. Há relatos de que ela passou frio sem poder pagar por caleifação e de que mais de uma vez teria desmaiado de fome no trabalho. Mas ela conseguiu, em 1893 ela recebeu seu bacharelado em Física, e foi trabalhar em um laboratório industrial.

E foi no ano seguinte que ela perguntou pra um amigo se ele não saberia de um laboratório maior, com mais espaço, precisando de uma Física. Ele falou que sim, tinha um sujeito, Pierre Curie, que tinha um laboratório bom e que podia aceitá-la. E ela foi falar com Pierre. Ele a aceitou como pesquisadora. E tempos depois como esposa, porque uma mulher dessas um sujeito esperto não deixa passar batido.

Ela não queria casar porque queria voltar pra Polônia, e ele que sabia que aquela era uma mulher incrível falou “foda-se, vou junto”. E ele foi, e chegando lá eles concluíram que o lugar continuava medieval para as mulheres, e voltaram para a França, e lá casaram, e assim a Maria Sklodowska virou a Professora Marie Curie, um nome mais conhecido pela atualidade.

E foi aí que começou a revolução científica, porque esses dois trabalhando juntos descobriram muito, mas muito mesmo sobre a matéria.

Já rolava antes o conhecimento de que alguns materiais emitiam radiações mensuráveis, e os raios-X haviam sido há pouco descobertos. Mas achava-se que isso eram emissões de energia advindas de reações moleculares, e não de dentro dos átomos já que átomos eram indivisíveis. Eles provaram que a energia era emitida de dentro dos átomos, um primeiro passo para nosso entendimento atual das estruturas subatômicas.

Eles também descobriram que o elemento Tório, já conhecido, emitia mais energia que o Urânio, e descobriram dois novos elementos químicos: o primeiro ela batizou de Polônio, em homenagem a seu país, e o segundo de Rádio, do latim Radium (raio). Juntos publicaram mais de 30 artigos, entre eles um que demonstrava como radiação podia inibir o crescimento de células tumorais.

Só me deixem esclarecer que quando digo “eles” e “juntos” eu quero dizer exatamente o seguinte: ela idealizou a coisa toda, a pesquisa em radiação era toda dela, as grandes hipóteses e descobertas foram dela. Ele ajudou.

Em 1903, Marie Curie recebeu o Prêmio Nobel da Física, a primeira mulher a ser contemplada pelo Nobel. Com a grana eles puderam pela primeira vez pagar por um assistente de laboratório. Sério.

Só que em 1906 o Dr. Pierre Curie andava distraído pelas ruas de Paris quando PLOFT uma carruagem passou por cima dele, e ele morreu. Sério. Ela ficou devastada, aquele homem era seu grande amor e eles tinham duas filhas pequenas. Mas ela sobreviveu, e continuou pesquisando.

A Universidade de Paris ofereceu a ela a cadeira de professor do Pierre, e ela se tornou a primeira mulher a dar aulas lá. E ela fez mais pesquisas, e em 1911, bem, ela ganhou outro Nobel, agora da Química, pelos estudos com o Rádio. Não apenas foi a primeira pessoa a ganhar dois Prêmios Nobel, é até hoje a única pessoa a ganhar dois em áreas diferentes.

Ela também desenvolveu o primeiro aparelho portátil de radiografias, para uso com soldados na I Guerra Mundial. Salvou incontáveis vidas.

Uma de suas maiores realizações, o trabalho da vida toda, foi a criação do Radium Institute, posteriormente Marie Curie Institute. Desse instituto saíram depois outros 4 prêmios Nobel. Um deles foi de Irene Curie, sua filha.

Em 1932 ela funda o Instituto de Rádio de Varsóvia, na Polônia, onde sua irmã, aquela lá, se torna coordenadora. Esses dois fatos foram só para pontuar quanto prejuízo social a opressão machista nos proporciona ao excluir mulheres da ciência.

E, finalmente, em 1937, Marie Curie falece, vítima das conseqüências nocivas da exposição à radiação por décadas. Até mesmo seus objetos pessoais e os originais de seus artigos são hoje mantidos em isolamento por serem altamente radioativos.

É impossível listar todos os prêmios e homenagens feitos a ela pela comunidade científica por suas contribuições. Limitemo-nos, a título de ilustração, a saber que hoje a unidade de medida de emissão de radioatividade é o Curie.

Marie Curie é até hoje a única mulher sepultada no Pantheon da França por seus próprios feitos. Um cientista da época afirmou que a maior descoberta da vida de Pierre Curie foi Marie Curie.

“Marie Curie é provavelmente a única pessoa que conheci que a fama não corrompeu”
Albert Einstein

Uma de suas várias estátuas, essa está no Radium Institute de Varsóvia:

Sklodowska-Curie_statue,_Warsaw

E essa foi a de hoje, pessoas. Semana que vem tem mais. Obrigado pela costumeira paciência.

Para acessar outros textos da série #Cientwistas, clique aqui.

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