#Cientwistas – Carl Sagan

Por Victor Caparica

Escrever esse episódio dos foi pra mim uma alegria e um exercício de gratidão.

Na semana passada falei de uma divulgadora científica que continua viva e divulgando, a Mae Jemison. Hoje vou falar de outro, talvez o maior de todos os tempos, mas que infelizmente partiu muito mais cedo do que deveria.

Filho de Rachel e Samuel Sagan, Carl Edward nasceu no Brooklyn, Nova York, em Novembro de 1934. Ele tinha uma irmã, Carol, e ambos cresceram em um apartamento pequenininho em uma vizinhança humilde.

Sua mãe, Rachel, cresceu sendo muito pobre, e seus planos pessoais de estudar foram frustrados pela pobreza e pelo machismo. Então meio que como uma forma de compensar os estudos que não pôde ter, ela enfiou na cabeça que pelo menos seus filhos estudariam.

De sua mãe, ele herdou a natureza questionadora, à qual ele mesmo atribuiu a formação de seu senso cético. De seu pai ele diz ter herdado o maravilhamento com as coisas do mundo, que junto com o ceticismo formou seus alicerces de cientista.

Certa feita, ainda criança, ele perguntou para a mãe o que eram as estrelas. Ela não fazia idéia, mas conhecia uma solução. Ela pegou o menininho pela mão e o levou até uma biblioteca, e lá fez pra ele sua primeira carteirinha. E Carl emprestou seu primeiro livro. Era sobre estrelas, e nelas ele descobriu que o Sol era uma estrela, e as estrelas eram outros sóis, apenas muito distantes.

Metade do cientista germinou naquele dia. A outra metade germinaria pouco depois, na Feira Mundial de 1939, onde seus pais o levaram. Lá ele viu tudo quanto era invento. Um que transformava som em luz, outro que transformava luz em som, todo tipo de maravilha. 90% era tralha inútil, como costumava ser nessas feiras, mas aquilo incendiou a curiosidade científica daquele menino. No livro “O Mundo Assombrado Pelos Demônios”, na crônica “A Coisa Mais Preciosa”, ele conta essa história, e é lindo.

Enfim, chegou o dia que o pequeno Carl cresceu e entrou pra Universidade de Chicago, de onde anos depois ele saiu doutor em Astronomia. Seu orientador, Gerard Kuiper, era só um dos maiores astrofísicos de seu tempo, tem um cinturão de asteróides com o nome dele inclusive.

E foi nessa época que ele pirou na idéia de vida extraterrestre, que virou um de seus maiores interesses na ciência espacial. Ele realizou uma variação do experimento de Oparin, onde com radiação e elementos brutos conseguiu formar aminoácidos, os tijolos da vida. E foi com esse currículo que a partir dos anos 50 ele começou a trabalhar para a NASA.

E desde seu primeiro ano até sua morte, Carl participou dos projetos de todas as sondas espaciais lançadas pelos EUA. Todas.

Em 1977 ele participou da equipe que lançou as sondas Voyager, nossos artefatos atualmente mais distantes de casa, já fora do sistema solar. Ele teve uma idéia, que partia da noção de que as Voyagers errariam pelo espaço pela eternidade, e talvez fossem encontradas por outra raça.

Então ele propôs, e a galera abraçou a idéia, que uma mensagem fosse escrita e enviada para o espaço junto com as Voyager. O Voyager Golden Record inclui todo tipo de informação sobre nós, nossa anatomia, nossos idiomas, nossa música, nossa história. Esse disco e os diagramas para reproduzí-lo já estão fora do sistema solar, talvez um dia sejam encontrados (ou não) por outra inteligência.

Carl também contribuiu fortemente nas descobertas científicas sobre a temperatura de Vênus e os oceanos líquidos de Titan, em Saturno.

Mas a vida extraterrestre era a segunda maior preocupação do Carl, sua maior era a vida intra-terrestre, mais exatamente a nossa. Como cientista, ele dedicou seus anos a divulgar o conhecimento e o pensamento científicos como forma de emancipação humana.

Ele escreveu inúmeros ensaios sobre o tema, publicou um monte de livros ensinando conceitos de forma exemplarmente didática. E também foi um dos primeiríssimos cientistas a alertar para os problemas do aquecimento global e do buraco na camada de ozônio.

Mas de tudo o que esse sujeito fez, creio que nada supere a importância de Cosmos. Em 1980 ele escreveu e apresentou uma série de 13 episódios chamada “Cosmos, a Personal Voyage”, que mudou muitas vidas.

Nessa série ele ensinou ao mesmo tempo ceticismo, ciência, humanidade e espiritualidade de uma maneira única. Cosmos é o programa de TV mais assistido no mundo, já foi exibido em mais de 200 países e em tudo quanto é idioma que existe. Perdi a conta de quantos cientistas ouvi dizerem que foram levados para a ciência por Cosmos ou por algum livro do Carl, no Brasil e lá fora.

“O Mundo Assombrado Pelos Demônios” é até hoje uma pedra angular do pensamento científico, uma leitura que mudou vidas, inclusive a minha. Com “Os Dragões do Éden” Carl foi agraciado só com o Prêmio Pulitzer de Melhor Não-Ficção.

Infelizmente os fatos interessantes da vida do Carl são mais numerosos do que esse comporta, então vamos aos finalmentes.

Em 1996, após lutar contra a mielodisplasia, Carl Sagan faleceu em Seattle. Foi um dia bem difícil para a ciência, aquele. Seu legado inclui palestras, livros, episódios de TV, o filme Contato e uma legião de cientistas que ele inspirou.

E eu gostaria de terminar esse mais longo e mais difícil de escrever de todos contando a história do Pálido Ponto Azul.

A Voyager foi enviada da Terra para mapear o sistema solar e depois o espaço interestelar, e o Carl estava na equipe. Sua missão principal era sobrevoar e fotografar de perto Saturno e seus anéis, e foi o que ela fez, muito bem por sinal.

Foi quando o Carl teve uma idéia, brilhante se querem minha opinião. Ele chegou na galera e falou: “pessoal, vamos virar 180 graus a Voyager e tirar uma foto da Terra conforme vista de Saturno?”

Um monte de babaca sem senso de oportunidade artística foi contra, disseram que não era ciência, bla bla bla. Mas ele conseguiu autorização dos superiores, e a sonda girou, e a foto foi tirada, e ele escreveu um texto, e depois um livro.

Essa é a foto, que virou a capa, e esse é um trecho da introdução desse livro:

Esse era o espírito do cara, despertar as pessoas para uma fraternidade centrada no entendimento de que todos somos parte do mesmo Cosmos.

Isaac Asimov, maior escritor e maior ego inflado da ficção científica, escreveu sobre Carl Sagan:

“Foi um dos dois únicos cientistas que conheci cujo intelecto superava o meu.”

O outro, pra saciar a curiosidade, foi Marvin Minsky, outro gênio que um dia aparecerá por aqui.

É impossível fazer caber aqui todos os prêmios e homenagens dados e nomeados em sua memória, são muitos mesmo. Mas se hoje eu amo a ciência e conto aqui histórias dos cientistas que admiro, vocês podem ter certeza que é porque um dia eu li Carl Sagan. E aprendi com ele a perceber beleza e espiritualidade profundas no entendimento científico do Cosmos.

E essa, pessoas, foi minha tentativa pífia de homenagear a memória desse sujeito contando um pouco de sua história. Obrigado.

Para acessar outros textos da série #Cientwistas, clique aqui.

Anúncios
Esse post foi publicado em Cientwistas e marcado , , . Guardar link permanente.

2 respostas para #Cientwistas – Carl Sagan

  1. Pingback: #Cientwistas – Michael Faraday | Além do Laboratório

  2. Pingback: Os Quatro Motivos de Carl Sagan para transmitir a Ciência | Além do Laboratório

Dê sua opinião

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s