Por que o investimento em Ciência é essencial para o desenvolvimento do Brasil?

Em períodos de crise econômica e ajuste fiscal, o investimento em pesquisa básica, pesquisa aplicada e desenvolvimento sempre sofre baques. No Brasil, esses baques parecem ser ainda mais intensos, porque a área de ciência e tecnologia parece sempre supérflua. Nesse ano, já ocorreu de novo, com o contingenciamento de verbas em torno de 30% do orçamento da Ciência e Tecnologia, que causou revolta em alguns deputados.

A pouca prioridade a área de Ciência e Tecnologia não é privilégio do governo atual, mas os sinais estavam aí desde o final do ano passado, quando a pasta se tornou moeda de troca política e foi assumida por Aldo Rebelo, que não só não tem familiaridade com a área como também é (ou era) um negacionista das mudanças climáticas.

Mas a pouca atenção à Ciência e Tecnologia não são exclusividade do governo federal. Na Câmara dos Deputados, por exemplo, um Fábio Sousa, um pastor, foi eleito presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia. Nada contra a profissão dele em si. Tudo contra ele apoiar iniciativas como a de Marco Feliciano em implantar o criacionismo nas escolas.

Nos estados não é diferente. O Amazonas, por exemplo, que precisa criar e gerir tecnologia pra preservar a Amazônia, acabou de extinguir a Secretaria de Ciência e Tecnologia. E no setor privado não é diferente. O Brasil é um dos únicos países entre as economias relevantes do mundo em que o setor público investe mais em ciência, tecnologia e inovação do que o setor privado:

Gastos com P&D no mundo (Fonte: Agência Senado)

Gastos com P&D no mundo (Fonte: Agência Senado)

Qual é o problema com isso? Bem, a questão é que, quando os países são muito dependentes dos governos na parte de pesquisa e desenvolvimento, em geral períodos de recuperação econômica são mais complicados. A capacidade dos mercados de inovar é essencial para que os países se desenvolvam, e Schumpeter já dizia isso:

“O capitalismo é, por natureza, uma forma ou método de transformação econômica e não apenas, reveste caráter estacionário, pois jamais poderia tê-lo. Não se deve esse caráter evolutivo do processo capitalista apenas ao fato de que a vida econômica transcorre em um meio natural e social que se modifica e que, em virtude dessa mesma transformação, altera a situação econômica. Esse fato é importante e essas transformações (guerras, revoluções e assim por diante) produzem freqüentemente transformações industriais, embora não constituam seu móvel principal. Tampouco esse caráter evolutivo se deve a um aumento quase automático da população e do capital, nem às variações do sistema monetário, do qual se pode dizer exatamente o mesmo que se aplica ao processo capitalista. O impulso fundamental que põe e mantém em funcionamento a máquina capitalista procede dos novos bens de consumo, dos novos métodos de produção ou transporte, dos novos mercados e das novas formas de organização industrial criadas pela empresa capitalista.” (SCHUMPETER, 1982, p.110)

Ou seja: sem inovação, a economia se estagna, o desenvolvimento econômico cessa, e o país entra em um círculo vicioso em que a crise parece interminável. Outras palavras importantes a respeito do tema são as de Luiz Álvarez-Gaume, pesquisador do CERN, em entrevista ao El País:

Está claro que todos os países onde há um investimento em ciência básica são países nos quais não houve crise, ou quase não houve. Onde há P+D+i [pesquisa, desenvolvimento e inovação], como Suíça, Finlândia e Japão, a crise mal se nota, e na verdade o que eles têm feito é investir mais. Na Espanha, investiu-se muitíssimo dinheiro nos Jogos Olímpicos de 1992, e agora somos uma potência mundial em nível desportivo. É surpreendente que um país com 40 milhões de habitantes tenha resultados comparáveis a países muito maiores. É um investimento que floresceu com o tempo. A ciência é muito mais difícil. Fazer um Contador [Alberto Contador, ciclista] é fantástico, mas fazer um Einstein, um Galileu ou um Newton leva muito mais tempo. É necessário um investimento sistemático, não cortar cada vez que há um problema, porque isso é ter uma miopia atroz.

O mais importante da fala de Gaume está no primeiro parágrafo: Gaume afirma categoricamente – e embasado em fatos – que países com investimento intensivo em Ciência e Tecnologia estão menos propensos a crises econômicas. A pesquisa e desenvolvimento enriquecem a pauta de comércio não apenas em valor agregado, mas no acréscimo de conhecimento. E isso é essencial para o desenvolvimento não apenas na esfera econômica, mas na esfera social e na própria consolidação das instituções democráticas.

Enquanto isso, o Brasil patina: cerca de 70% de nossas exportações ainda são compostas de produtos não manufaturados. Basicamente, exportamos commodities: produtos agropecuários e minerais. A participação da indústria na pauta de exportações é baixa, e a da indústria de alta tecnologia ainda mais irrelevante.

Por que esse investimento em ciência e tecnologia é importante? Quem nos diz é Allyson Muotri, ao contar a história do desenvolvimento tecnológico norte-americano após a 2º Guerra Mundial (e sua decadência atual):

Quem está antenado em ciência, tecnologia e inovação deve ter notado que o mundo passa por uma crise. Parte da culpa é a queda drástica, nas últimas décadas, do suporte para pesquisas básicas e aplicadas oferecido pelo maior financiador de novas descobertas científicas, os Estados Unidos.

Mais da metade da riqueza criada nos EUA após a Segunda Guerra Mundial tem origem na pesquisa universitária. Tecnologias inovadoras, como a internet, lasers, telefone celular, drones e uma série de produtos biológicos, são atribuídas a pesquisadores trabalhando em laboratórios acadêmicos. As razões dessa redução de investimento cientifico são diversas e complexas e detalhar todas aqui não é foco desta coluna.

A grande questão é que, como consequência da perda de investimento em ciência, os EUA estão, aos poucos, desacelerando e perdendo sua posição de líder mundial em tecnologia.

Na área da saúde o problema é visível. Diversos pesquisadores, com linhas de pesquisa arrojadas e promissoras, estão fechando as portas de seus laboratórios, principalmente em universidades públicas. O mundo simplesmente não pode mais contar que os EUA irão descobrir a cura para as doenças da humanidade, exigindo maior atuação de outros países.

Alguns países emergentes mais estratégicos, como a China, têm se aproveitado dessa situação para recuperar cérebros exilados, oferecendo pacotes de trabalho impensáveis no mercado americano atual. O objetivo é capitalizar na desaceleração americana, buscando fomentar projetos inovadores e liderança tecnológica.

Países como a China já se atentaram para essa questão. Inclusive, na China, mesmo com um regime “comunista”, 75% dos gastos com pesquisa e desenvolvimento são feitos pelo setor privado. Aqui no Brasil continuamos dependentes do governo e de estruturas de financiamento governamentais, como o BNDES. E a pesquisa científica sistemática, como política de estado inabalável, imune às crises econômicas, continua não sendo uma realidade.

Referências

SCHUMPETER, Joseph A., Teoria do Desenvolvimento Econômico: uma investigação sobre lucros, capital, crédito, juro e o ciclo econômico. São Paulo: Abril Cultural, 1982

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