Mudanças Climáticas contribuíram para a explosão da Guerra Civil na Síria

(com Scientific American)

Sírios tendo que lidar com a seca (Fonte: forte.jor.br)

Sírios tendo que lidar com a seca (Fonte: forte.jor.br)

O ano de 2014 foi o mais quente da história do planeta desde que o homem começou a fazer medições. Os 13 anos mais quentes já registrados estão no século XXI. É de se esperar que esse cenário traga reflexos para a vida cotidiana, para a política e para a coesão do tecido social. Esses reflexos parecem estar chegando.

Houve um tempo em que o homem era nômade, e as mudanças climáticas motivavam grandes migrações. Com o fim da última era glacial, por exemplo, povos se estabeleceram, na Europa, na Ásia e nas Américas, nas regiões que anteriormente eram dominadas por geleiras. Existem até hoje registros da passagem de humanos por lugares como o Mar do Norte e o Estreito de Bering. A explicação é simples: há dez mil anos, no final da última glaciação, o nível do mar era mais baixo antes do derretimento total das geleiras, e o clima foi se tornando progressivamente mais ameno. Com a invenção e o desenvolvimento da agricultura, as pessoas passaram a se estabelecer em povoados e a construir sociedades.

A questão é que a configuração mundial hoje é totalmente diferente daquela que forçou imigrações ao fim do período glacial. Quase todas as áreas de terra firme do mundo, produtivas ou não, são reivindicadas por algum país. Há fronteiras entre os países como fatores impeditivos de migrações em massa. E essas fronteiras aumentam as tensões internas em caso de mudanças climáticas catastróficas.

A mudança climática global já provoca catástrofes sociais. Um estudo publicado por uma equipe de pesquisadores de várias universidades americanas no Proceedings of the National Academy of Sciences mostrou que um fator determinante para o agravamento das tensões sociais na Síria, que explodiram em uma sangrenta guerra civil em 2011, foi a mudança climática.

Entre 2006 e 2011 a Síria sofreu a maior seca de sua história. Plantações foram destruídas e famílias foram forçadas a se mudar para as cidades. Para Richard Seager, da Universidade de Columbia, co-autor do estudo, esses fatores, adicionados ao influxo de refugiados que vieram para o país por ocasião da guerra no Iraque, intensificaram as tensões sociais no país, até a eclosão da guerra em 2011.

Para Seager, “Nós não estamos dizendo que a seca causou a guerra. Nós estamos dizendo que a seca, adicionada a todos os outras tensões, ajudou a colocar a sociedade em uma situação-limite que evoluiu para o conflito aberto. E uma seca dessa gravidade ocorreu provavelmente porque a ação humana está diminuindo as precipitações na região”

Seager ainda faz uma alerta para todo o Oriente Médio nos próximos anos. “O Oriente Médio enfrenta um clima mais seco e mais quente devido à mudança climática. Isso causará uma briga por recursos hídricos e por áreas para  agricultura, aumentando ainda mais o risco de conflito”.

O aumentando das temperaturas em escala global está afetando a região de duas formas, para os autores do estudo: aumentando o índice de evaporação em solos já secos, inutilizando-os para a agricultura, e trazendo menos ventos úmidos do Mar Mediterrâneo na estação chuvosa, que vai de novembro a abril.

Esse estudo não é o primeiro que correlaciona mudanças climáticas ao risco de conflitos. Um estudo de 2009 coletou 30 anos de dados sobre a África subsaariana, concluindo que havia uma correlação entre o aumento da temperatura nesses países e a explosão de conflitos. Em 2011, um estudo mostrou que um dos fatores de insatisfação que contribuíram para a “Primavera Árabe”, no Egito, foi o aumento do preço dos alimentos, provocado pela mudança climática, que diminuiu a área cultivável em torno do Rio Nilo.

O IPCC disse, em eu último relatório, que as mudanças provocadas pelo homem estão tornando a região do Oriente Médio mais seca do que o normal. O alerta foi tão grave que chamou a atenção do Departamento de Defesa dos EUA, que declarou as mudanças climáticas como um “Multiplicador de ameaças” e passou a cobrar iniciativas para que as transformações em curso sejam contidas.

A equipe da Scientific American perguntou para Seager se a equipe que conduziu a pesquisa compartilhava das mesmas preocupações. Ele foi enfático: “Sim. A mudança climática é um fator de preocupação para a segurança regional, nacional, e internacional e este estudo deixa claro como essas ameaças podem se materializar. A guerra síria assumiu, atualmente, características próprias. Só que uma seca agravada pelas alterações climáticas foi um fator importante para a sociedade síria entrar em convulsão social”.

Colin Kelly, pesquisador da Universidade da Califórnia que liderou esse estudo, compartilha o mesmo ponto de vista, tomando o cuidado de dizer que o papel das secas é catalisador, agravando tensões sociais já existentes. Para ele, o papel da pesquisa foi mostrar empiricamente que os conflitos não nascem da seca, mas, em um cenário em que as secas são mais extremas, certamente são agravados por ela.

Referência

Kelly, Colin P.; Mohtadi, Shahrzad; Cane, Mark A.; Seager, Richard; Kushnir, Yochanan; Climate change in the Fertile Crescent and implications of the recent Syrian drought, PNAS 2015; published ahead of print March 2, 2015, doi: 10.1073/pnas.1421533112

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