#Cientwistas – Cecilia Helena Payne

Por Victor Caparica

Hoje vou falar de uma mulher que também quase ninguém ouviu falar, mas que deveria ser mais famosa que a Marilyn Monroe. O nome dela é Cecilia Helena Payne, ela nasceu na Inglaterra em 1900.

Só que não tem como contar a história dessa mulher sem contar junto a de outras duas. Acontece que no começo do século passado um astrônomo chamado Arthur Eddington montou uma equipe de mulheres para mapear estrelas. Ele não fazia isso porque era feminista, mas porque elas faziam bem o trabalho e podiam ser ridiculamente subremuneradas. Esse sujeito Eddington foi quem fez a observação do eclipse solar que demonstrou que a Teoria da Relatividade Geral estava correta.

Vamos agora para Cambridge, onde uma moça chamada Cecilia Helena Payne tinha conseguido uma vaga para estudar Botânica, Física e Química. Ela terminou todas as disciplinas, mas Cambridge não dava diplomas para mulheres então ela não se formou. Mas teve algo importante lá. Ela assistiu lá a uma palestra do Arthur Eddington, e se apaixonou pela Astronomia, e resolveu ir embora pros EUA, em 1920.

Lá ela conseguiu, depois de muito esforço, uma vaga na equipe de mulheres subremuneradas do Eddington. E não tinha como ninguém saber, mas quando ela chegou lá foi iniciado o processo que deu origem a um novo campo da ciência. Porque ela começou a trabalhar com Annie Cannon e Henrietta Leavitt, as outras duas mulheres dessa história.

Curiosamente, Leavitt e Cannon eram pessoas com deficiência, ambas surdas. Ninguém dava um miolo de pão velho por essas mulheres, a bem da verdade naquela época por mulher nenhuma. Mas elas estudaram e trabalharam.

Os resultados dessas mulheres subremuneradas subvalorizadas e que não podiam nem encostar nos telescópios por que era trabalho pra homem?

Annie Cannon desenvolveu o maior catálogo de estrelas já produzido até então, de muito longe. O sistema de classificação de magnitude e temperatura das estrelas até hoje é o Sistema Cannon.

Henrietta Leavitt descobriu no período de luminosidade das estrelas o conceito de standard candles. Foi através desse conceito que pudemos medir a distância das galáxias mais distantes e saber o tamanho do Universo visível.

Mas a melhor parte foi a tese de doutorado da Cecilia Payne, a primeira de uma mulher na Harvard. Ela analisou os montes de espectrogramas dos milhões de estrelas catalogadas pela Cannon e Leavitt, e fez a maior descoberta da Astronomia. Porque na época era conhecimento bem assentado que a composição das estrelas era praticamente igual à da Terra, em sua maioria elementos pesados.

Ela chegou pros caras e falou “Galera cês num vão botar uma fé mas as estrelas são quase só hidrogênio!” De fato ninguém botou uma fé, sobretudo porque era uma mulher desmentindo o conhecimento bem estabelecido dos homens.

Quatro anos depois o mesmo astrônomo que disse que ela tava maluca, Henry Russell, chegou à mesma conclusão sobre o hidrogênio. No seu artigo ele reconhece que quatro anos antes dele Cecilia Payne havia feito a mesma descoberta. Mas o que importa não é isso.

O que importa é que a tese dela, Stellar Atmospheres, é leitura obrigatória de primeiro ano de Astronomia até hoje. É considerada a obra mais brilhante da Astronomia, e funda o campo científico da Astrofísica.

Cecilia Payne foi a primeira professora titular da Harvard, e a primeira chefe de departamento da Harvard. Dedicou o resto da vida, até 1979, a fomentar a entrada de mulheres no sistema de ensino e nas universidades.

Moral da história: Quando você exclui do jogo 50% da humanidade com base em diferenciação de sexo, a humanidade é de longe quem mais perde. Porque eu imagino o que elas não poderiam ter feito se ao invés de subremuneração tivessem recebido reconhecimento desde o começo.

E essa foi a historinha de cientista de hoje, meninada, muito obrigado pela paciência.

Para acessar outros textos da série #Cientwistas, clique aqui.

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