#Cientwistas – Giordano Bruno

(por Victor Caparica)

Semana passada eu falei de uma mártir da luta contra a misoginia e pelo conhecimento, Hipátia de Alexandria. Hoje vamos avançar alguns séculos, até 1548. Nosso destino é o reino de Nápoles, onde nasceu um sujeito chamado Giordano Bruno.

Pra entender a trajetória desse sujeito precisamos antes entender a condição de um saber científico daquela época, qual seja, o geocentrismo. É que naquele tempo a coisa era simples assim, a Terra ficava parada no centro de tudo, e os corpos celestes giravam em torno dela.

Não que ninguém nunca tivesse pensado em modelos heliocêntricos, o Copérnico anos antes tinha publicado seu livro sobre isso inclusive. Problema é que galera na época tava muito agarrada no modelo científico proposto pelo Velho Testamento, Terra no centro e fim de papo. A ponto que a igreja declarou que o modelo copernicano só era válido como modelo matemático, não como descrição da realidade. Sério.

Bom, vamos agora pro sujeito Giordano Bruno, que na época era monge dominicano em Nápoles, já que ainda não tinha Itália que nem hoje. O cara era um subversivo por natureza, aquele tipo questionador que não cabia direito na instituição onde vivia. Cabe pontuar que ele não era ateu, nem de longe. Bruno era um homem de fé, e por essa fé ele quis investigar a criação de deus.

E foi investigando que ele chegou a um livro dentre os proscritos pela igreja, os textos antigos dum sujeito grego Aristarco de Samus. Nesse livro ele encontrou uma proposta cosmológica que falava de estrelas muito distantes e um Universo virtualmente infinito. E pirou nessa proposta.

Foi quando seus superiores notaram que não era a Bíblia que ele tava lendo, e afastaram o cara do acesso a tão profana e herética literatura. Mas o cara não largou mão da idéia, ao contrário, continuou viajando nessa de Universo infinito e lendo mais sobre modelos não-geocêntricos.

Com 30 anos de idade ele teve um sonho, que descreveu em um texto. No sonho ele vislumbrou um Universo infinito sem orientações fixas como cima e baixo, onde as estrelas eram outros sóis, com outros planetas.

Vamos só parar aqui e manter em mente que o modelo cósmico de Bruno não foi uma inspiração mística do além. Ele tinha muitos anos de leituras sobre astronomia que o levaram a julgar que o modelo que imaginou fazia sentido. As estrelas eram outros sóis, nosso Sol só uma estrela, e haviam incontáveis outros planetas iguais à Terra. Um pluralismo cósmico. E a coisa fez tanto sentido pro cara que ele saiu por aí espalhando a idéia pra geral, o Sol era só outra estrela e haviam outros mundos.

Bom, dá pra supor com alguma facilidade como as forças religiosas da época reagiram, né? Outros mundos???

Ele foi excomungado pela Igreja Católica e banido tanto pelos Calvinistas quanto pelos Luteranos. Ninguém ficou do lado do cara. E quando palestrou na Oxford e falou de seu modelo pluralista, bem, os cientistas da época o acusaram de heresia também. (Eis inclusive a mais poderosa contribuição de Charles Darwin ao separar ciência de teologia, mas isso é outra história).

Mas nenhuma rejeição baseada em autoridade e tradição pôde manter o sujeito calado. E assim ele retornou a Nápoles. E assim ele foi capturado pela Santa Inquisição, preso e interrogado por 8 anos. Oito. Anos. Em seu julgamento ele se defendeu das acusações de heresia, afirmando inclusive que um deus infinito só poderia criar um universo infinito. Foi condenado à morte, por suas visões teológicas e astronômicas, e seus livros todos foram proscritos.

“É possível que vocês sintam mais medo ao dar-me essa sentença do que eu ao recebê-la” Disse ele após ouvir sua condenação à fogueira.

Em 17 de Fevereiro de 1600, Giordano Bruno foi queimado vivo em Roma. Por medo de suas palavras subversivas, seus algozes o amordaçaram. Apenas 10 anos depois, Galileu fez a primeira observação telescópica dos céus, e confirmou o modelo de Bruno sobre outras estrelas e mundos. Em sua memória a Giordano Bruno Foundation, na Alemanha, luta hoje pelo secularismo no pensamento científico.

Para acessar outros textos da série #Cientwistas, clique aqui.

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