A Floresta Amazônica depende do deserto do Saara para existir. A NASA explica

(com NASA)

A NASA fez observações em três dimensões via satélite, entre 2007 e 2013, com foco nos “aerossóis” que transitam pela atmosfera, com o objetivo de mapear fenômenos climáticos de alcance global. E esse estudo quantificou de forma relativamente precisa o quanto de sedimentos transita entre o Deserto do Saara e a Floresta Amazônica todos os anos.

Por mais que pareça estranho, à primeira vista, cientistas já sabiam que correntes de vento globais transportam sedimentos entre regiões e até mesmo entre continentes. Em 2010, já havia sido publicado um estudo na Nature mostrando que a poeira proveniente do Saara colaborava com a manutenção da riqueza da Amazônia. O que surpreende, na descoberta mapeada pela iniciativa CALIPSO (Cloud-Aerosol Lidar and Infrared Pathfinder Satellite Observation), é o papel decisivo que a poeira que atravessa o Oceano Atlântico tem na manutenção da Floresta Amazônica (e no próprio sistema terrestre)

Sabe-se que a Floresta Amazônica é uma Floresta Equatorial densa, abastecida por nascentes vindas dos Andes e de outras áreas de relevo mais alto, como o Planalto das Guianas e o Planalto Central. Tudo isso faz com que um volume imenso de água desemboque no rio mais caudaloso do mundo, o Amazonas. Isso deveria fazer com que a Amazônia perdesse nutrientes anualmente, por meio de chuvas e de enchentes. E isso acontece, de fato, tornando o solo amazônico pobre em nutrientes.

Por ano, estima-se que a Floresta Amazônica perca algo em torno de 22 mil toneladas de fósforo, nutriente fundamental para a manutenção do bioma. A maioria dos outros nutrientes que a Amazônia perde são rapidamente reabsorvidos pelas plantas e animais da região. Mas o fósforo, que é responsável por boa parte da riqueza do solo, é frequentemente “lavado” pelas enchentes, comuns na região.

E é aí que entra a poeira do Deserto do Saara. As observações do CALIPSO mostraram que, em média, por ano, as mesmas 22 mil toneladas de fósforo que saem da Amazônia são repostas pela poeira proveniente do Saara, especialmente da Depressão Bodelé, no Chad. A Depressão Bodelé é uma espécie de “nascedouro de tempestades de areia”, e também é rica em nutrientes: era o maior lago da África, e secou há pouco mais de mil anos. A poeira que se origina lá e vem parar na Amazônia é o fundo daquele lago, repleto de restos orgânicos que, em forma de pó, chegam na Amazônia pra enriquecer o ecossistema do continente americano, repondo os nutrientes perdidos.

O autor do estudo publicado na Geophysical Research Letters, Hongbin Yu, da Universidade de Maryland, revelou os dados do estudo: anualmente, em média, 182 milhões de toneladas de poeira são levadas pelo vento do Deserto do Saara. Esse volume imenso de areia viaja por 2500 Km pelo Oceano Atlântico, e, no final da viagem, 132 milhões de toneladas permanecem no ar. Desses 132 milhões de toneladas, 27,7 milhões caem sobre a Amazônia. Outras 43 milhões de toneladas de poeira caem sobre o Mar do Caribe. O restante da poeira acaba dispersa em outros locais do continente americano, levado pelas correntes de vento.

Outros fatores são relevantes, segundo o pesquisador. Houve uma variação de 86% no volume de areia transportado entre 2007 e 2011. As causas ainda não estão claras, mas Yu argumenta que essa variação tem relação direta com a quantidade de chuvas na região do Sahel africano: quanto mais chove lá, menos poeira chega na Amazônia.

No entanto, outros cientistas que não atuaram diretamente no estudo, como Chip Trepte, cientista do Langley Research Center, da NASA, argumentam que o período de medição ainda é insuficiente para conclusões definitivas: “O registro de dados de sete anos é curto demais para olhar para as tendências de longo prazo, mas é muito importante para a compreensão de como a poeira e outros aerossóis se comportam na atmosfera acima do oceano”, disse o pesquisador.

Trepte completa: “Correntes de vento são diferentes em diferentes altitudes. Fazer uma pesquisa sobre o transporte de poeira três dimensões, comparando-a a seguir com os modelos usados atualmente ​​para os estudos climáticos é um passo à frente.”

Yu, por sua vez, ressalta a interdependência dos sistemas naturais da Terra mostrada na pesquisa: “este é um mundo pequeno, e nós estamos todos conectados”, diz o pesquisador.

Referência

Yu, H. et al. (2015), The Fertilizing Role of African Dust in the Amazon Rainforest: A First Multiyear Assessment Based on CALIPSO Lidar Observations, Geophys. Res. Lett., 42, doi: 10.1002/2015GL063040.

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