Na Fossa das Marianas, a 11.000 metros de profundidade, existe vida bacteriana

(com @sciam)

Um grupo de pesquisadores japoneses descobriu vida bacteriana em um dos lugares mais improváveis do mundo: no Challenger Deep da Fossa das Marianas, o ponto mais profundo do Oceano, localizado a pouco mais de 11 mil metros de profundidade.

A Fossa das Marianas é um local peculiar: localizada entre a placa do Pacífico e a Placa das Filipinas, é resultado de uma zona de subducção: a placa do Pacífico lentamente se acomoda abaixo da Placa das Filipinas, dirigindo-se aos poucos em direção ao manto terrestre.

O Challenger Deep, como era de se esperar, é um dos lugares mais inóspitos do planeta Terra: há 11 mil metros de profundidade, a pressão que o corpo sofre é de cerca de 1100 atmosferas. Seria o suficiente para esmagar a maioria das estruturas que existem na superfície terrestre.

A primeira vez em que o Challenger Deep foi visitado pelo homem foi em 1960: o batiscafo Trieste, da marinha real inglesa, chegou a 10.916 metros de profundidade, levando Dan Welsh e Jacques Piccard. Uma expedição também foi feita em 2012, pelo cineasta James Cameron, que chegou à 10.998 metros de profundidade, filmou o local com câmeras de alta resolução em 3D e recolheu algumas amostras do leito marítimo.

Agora, uma pesquisa feita por um grupo baseado em diversas universidades japonesas descobriu algo mais relevante sobre o lugar: a vida bacteriana sobrevive mesmo nas maiores profundidades. Mais do que isso: um dos maiores índices de vida bacteriana foi encontrado justamente no leito da  Fossa das Marianas, a 11 mil metros de profundidade.

Diversidade microbiana de acordo com a profundidade na Fodda das Marianas (Fonte: JAMSTEC)

Diversidade microbiana de acordo com a profundidade na Fossa das Marianas (Fonte: JAMSTEC)

O líder da equipe que conduziu o estudo, Takuro Nunoura, da Japan Agency for Marine-Earth Science and Technology (JAMSTEC), disse que “a vida de bactérias heterotróficas nas águas profundas do Challenger Deep é relativamente abundante, em quantidade semelhante a um poço de água não tratada”

As bactérias heterotróficas do fundo da Fossa das Marianas transformam em alimento materiais orgânicos que descem até o fundo do abismo, como resíduos de coliformes fecais oriundos de navios, restos de naufrágios ou sedimentos que chegaram ao fundo do mar em terremotos ou por erosão. Esses eventos são raros, mas, em escala geológica, são bastante frequentes, sendo suficientes para a manutenção do ecossistema em altas profundidades.

O estudo mostrou que, até 100 metros de profundidade, prevalece o fitoplâncton, alimentado pela luz solar. De 100 a 6 mil metros de profundidade, as bactérias inorgânicas litotróficas (que processam substratos minerais para conseguir nutrientes, tais como enxofre e amônia) são a maioria. À partir dos 6 mil metros de profundidade, as bactérias heterotróficas, que processam material orgânico vindo da superfície, estão em quantidade maior do que as litotróficas.

O mais impressionante, no entanto, é a quantidade de Gammaproteobactérias nas profundidades mais extremas. Acima de 10 mil metros de profundidade, esse grupo de bactérias heterotróficas se torna a maioria, dentro das amostras encontradas. É mais uma demonstração conclusiva de que a vida, em formato simples, pode sobreviver por um cuidadoso processo de renovação do material orgânico disponível, mesmo em condições extremas de pressão e na total ausência de luz solar.

Referência

Takuro Nunoura, Yoshihiro Takaki, Miho Hirai, Shigeru Shimamura, Akiko Makabe, Osamu Koide, Tohru Kikuchi, Junichi Miyazaki, Keisuke Koba, Naohiro Yoshida, Michinari Sunamura, and Ken Takai: Hadal biosphere: Insight into the microbial ecosystem in the deepest ocean on Earth 
PNAS 2015 ; published ahead of print February 23, 2015, doi: 10.1073/pnas.1421816112

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