#Cientwistas – Hipátia de Alexandria

por Victor Caparica

Esclarecimento inicial: a série #Cientwistas, publicada originalmente pelo Victor Caparica no Twitter, é republicada aqui com autorização do autor.

O que é a série #Cientwistas?

Nas palavras do próprio autor:

é o nome que deram pra idéia que tive de toda semana contar aqui a história de alguma pessoa que contribuiu com a ciência. Da forma menos maçante possível. O propósito é tornar esses nomes mais conhecidos, simplesmente porque eles merecem. Já foram galardoados pelo : Claire Paterson, Cecilia Payne, Henrietta Swan-Lewitt, Annie Cannon, Michael Faraday e Rachel Carson

Hipátia de Alexandria

Hoje falarei de outra mulher.

Já falei de cientistas que ajudaram a construir os tempos modernos, mas hoje vou falar de tempos mais antigos.

Cabe aqui contextualizar duas coisinhas importantes, quais sejam o lugar e a cultura desses tempos. O lugar era a Alexandria do Egito no século IV, dividida entre o governo pagão e o cristianismo que já havia dominado Roma. Sobre a época, era um tempo em que as coisas conseguiam ser ridiculamente MAIS machistas do que já são hoje, por incrível que pareça. Mulheres não tinham poder, voz, espaço ou prestígio nessa sociedade dominada por homens, não podiam estudar e nem discursar em público. E definitivamente não tinham espaço nem voz na Biblioteca de Alexandria, a maior de seu tempo, lar das escrituras do conhecimento grego.

Felizmente essa regra também teve sua nobre exceção, e no caso ela se chamava Hipátia, que a História registrou como Hipátia de Alexandria. Ela era filha de Téon Alexandricus, matemático e filósofo da Biblioteca, e foi mandada ainda jovem pelo pai para estudar em Athenas. Retornou adulta, versada em astronomia, matemática, medicina e filosofia, e passou a trabalhar na Biblioteca com seu pai.

Seria impressionante eu dizer que ela foi a última professora de filosofia neoplatônica da Biblioteca de Alexandria. Mas ela foi mais. Ela foi a última DIRETORA da escola de filosofia neoplatônica em Alexandria, na maior biblioteca de seu tempo.

Agora pensem numa sociedade que conseguia o despropósito de ser MAIS machista que a nossa, onde mulheres mal podiam receber educação. Nessa sociedade havia uma escola de filosofia neoplatônica na maior biblioteca do mundo, repositório dos grandes filósofos gregos. E se você lá chegasse para estudar, teria que conversar e receber a aprovação de uma mulher, porque era ela quem manjava dos paranauês por lá.

Conta-se que certa feita um nobre local quis desposá-la, o que para ela seria um grande problema. Porque somente solteira e sob a influência do pai ela continuaria livre para ser quem era. Se casasse, virava propriedade do marido. Como ela se livrou dessa? O nobre tava em público fazendo pra ela uma declaração, e falava da beleza e pureza da moça. Ela enfiou a mão nas saias, arrancou um pano de menstruação usado, mostrou pro cara, e vendo o nojo perguntou “Vês beleza e pureza aqui?”

Acho que a essa altura já deve estar auto-evidente o motivo dela ter atraído o ódio das autoridades cristãs (homens) de então, né?

Havia um contexto bélico em Alexandria, uma disputa de poder entre o governante local, Orestes, e um Bispo de Roma, Cirilo. (Todos estão perdoados por lembrar de Carrossel, é normal, não precisam se punir por isso). Essa disputa nunca havia entrado na Biblioteca, e há evidências de que muitos alunos de Hipátia eram cristãos.

Só que esse negócio de uma mulher que dirige uma escola e coloca homem abusado no seu devido lugar deixou muita gente irritada. Dentre os irritados, o mais irritado de todos era o Bispo Cirilo, que tinha um grande séquito de imbecis fervorosos. Conta-se que a forma preferida desse grupo de imbecis para extirpar o mal do mundo era apedrejando até a morte quem julgassem maligno.

Agora, sério, vocês acham que uma mulher que nem essa ia ficar calada durante um conflito político desse tamanho em sua cidade? Não apenas não ficou calada como discursou alto, e isso chegou aos ouvidos da trupe de apedrejadores cristãos do Bispo.

No ano de 415, com cerca de 50 anos de idade, ela foi capturada e apedrejada até a morte pelos seguidores e sob ordens do Bispo Cirilo. A Biblioteca de Alexandria foi pros quiabos, o registro histórico dá conta de que seu prédio passou a ser usado como templo para orações.

A Igreja Católica cuidou de colocar cada figura histórica na moldura mais conveniente, conforme segue:

– Hipátia foi retratada como uma bruxa que usava seus poderes sombrios para enfeitiçar e manipular os homens rumo à danação.

– O Bispo Cirilo? Esse foi canonizado por limpar o mundo daqueles malditos pagãos, hoje atende por São Cirilo.

Somente muitos séculos depois disso a História redescobriu esse episódio e pôde fazer alguma justiça à memória dessa mulher. Hoje é lembrada como mártir da luta contra o obscurantismo, o fanatismo religioso e principalmente a misoginia.

Para quem quiser, há um filme espanhol de nome “Ágora” (Alexandria, no Brasil), com a Rachel Weis interpretando Hipátia. Embora o roteiro tome boas liberdades históricas, ainda é um filme bem legal de assistir.

E essa, amores, é a dessa semana, uma mulher que estava à frente até do nosso tempo, quem dirá de seu próprio.

Anúncios
Esse post foi publicado em Cientwistas e marcado , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para #Cientwistas – Hipátia de Alexandria

  1. Pingback: #Cientwistas – Giordano Bruno | Além do Laboratório

Dê sua opinião

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s