Um Universo sem o Big Bang?

(com phys.org)

A cosmologia é uma ciência fascinante por seu caráter intrinsecamente megalomaníaco. É impossível fugir disso quando a principal questão que embasa esses questionamentos é algo grandioso, como “qual é a origem do Universo?”. Saurya Das, professsor indiano da Universidade de Lethbridge, construiu, junto com Ahmed Farag Ali, da Universidade de Benha, Egito, um modelo para o início do universo baseado em flutuações quânticas, o que significa que, para eles, a singularidade inicial do Big Bang não existiu, e, talvez, o universo não tenha tido um início.

A conclusão deles se baseia em um estudo que uniu física relativística e mecânica quântica – mais precisamente, o estudo das trajetórias de David Bohm, que estabeleceu, na década de 50, quais as trajetórias mais curtas possíveis para a movimentação entre dois pontos de partículas quânticas. Ao aplicar as trajetórias de Bohm a uma equação que explica o modelo de expansão do Universo de acordo com a relatividade, eles conseguiram estabelecer um modelo em que o tamanho do universo é necessariamente finito, o que levou à conclusão de que o tempo poderia ser infinito, descartando a ideia de singularidade.

No entanto, eles utilizaram um artifício: esse modelo de Universo só funciona se existir uma espécie de “constante cosmológica” de natureza quântica que permite as flutuações quânticas quando o universo está em seu estado mais denso, impedindo as partículas de colidirem entre si em uma singularidade. Para esse modelo dar certo, também é necessária a existência de partículas de gravidade, como os grávitons, que tem sido buscadas há décadas por cientistas, sem êxito (ano passado a equipe do experimento BICEP2 chegou a anunciar a descoberta de ondas gravitacionais, mas ela foi desmentida quando a comparação com a medição do Telescópio Planck mostrou que aquilo que tinha sido detectado como onda gravitacional era, na verdade, poeira cósmica da Via Láctea que não havia sido prevista nos cálculos)

É interessante constatar, nesse caso, independente de qualquer eventual conclusão posterior, como as visões de Universo das pessoas, mesmo na ciência, são embasadas por suas visões de mundo prévias: Einstein, judeu, previu a singularidade da Teoria da Relatividade, que pode ser, de certa forma, comparada com a história da criação do Gênesis. Saurya Das, por sua vez, montou um modelo de universo baseado em ciclos que se repetem de bilhões em bilhões de anos, de forma eterna, como preveem a Cosmologia Hindu, exposta em livros como os Vedas e os Puranas. A cosmologia parece ter uma relação intrincada com a cosmovisão.

O post  foi uma dica do @charlesnisz

Mais informações: Ahmed Farag Ali and Saurya Das. “Cosmology from quantum potential.” Physics Letters B. Volume 741, 4 February 2015, Pages 276–279. DOI: 10.1016/j.physletb.2014.12.057. Also at: arXiv:1404.3093[gr-qc].

Saurya Das and Rajat K. Bhaduri, “Dark matter and dark energy from Bose-Einstein condensate”, preprint: arXiv:1411.0753[gr-qc]

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3 respostas para Um Universo sem o Big Bang?

  1. Leo, primeiro: gostei desse novo espaço seu aqui. Já vai ficar favoritado.

    Segundo: não se pode ter a menor dúvida, sempre digo, de como a cosmovisão do indivíduo se espalha por todo o seu trabalho. Kepler fez uma ciência orientada por sua fé cristã. Darwin, por causa das implicações liberais-unicistas, teve muito mais facilidade em romper com as ideias criacionistas do século XIX. E qulaquer outro cientista vai pro laboratório com o com o consciente e o subconsciente lotados de conceitos intrínsecos ao seu modo de pensar e ver o mundo.

    Abraço, meu amigo.

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    • Editoria Além do Laboratório disse:

      Valeu, Dani =)

      E eu concordo muito com isso. Quando a gente estuda a história da ciência isso fica muito claro: a cosmovisão das pessoas influencia demais o trabalho delas. E não só na ciência: em outras áreas profissionais isso me parece cada vez mais notório. É uma forma de afirmação, por muitas vezes inconsciente.

      E estou com saudades de nossas conversas também. Abraço!

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  2. Pingback: LHC volta a funcionar esse mês, com mais energia | Além do Laboratório

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